Quem conferiu a turnê “30 Anos” do Paralamas do Sucesso pôde perceber com mais clareza a grandiosidade da banda, seja por sua incrível potência no palco ou pela qualidade de melodias, arranjos e letras das dezenas de hits emplacados desde o início dos anos 80. Qualidade que é ainda melhor atestada (e bem curtida) com a caixa de 20 CDs que chegou às lojas.
 
Lançado pela Universal Music por R$ 366, o box contém todos os discos de estúdio e gravados ao vivo (inclusive, com os Titãs) desde 1983, além de dois novos: um com 16 registros em espanhol e outro com 17 “raridades”.

Na verdade, nesses dois CDs não há tanta novidade para quem acompanha a carreira da banda, o que não tira o brilho das ótimas gravações. A língua espanhola combina tão perfeitamente com o trabalho desenvolvido pela banda (desde o princípio, bastante influenciada pelas sonoridades jamaicanas e caribenhas) que a sensação de déjà vu é provocada a cada audição das canções entoadas por Herbert Vianna em outra língua.

Raridades não seria um termo muito adequado ao outro disco extra, exatamente porque a maioria das gravações foi bem explorada por publicidade e rádios desde os anos 90. Aqui estão registros deliciosos como “País Tropical” (feito para um comercial do chinelo Rider, em 1993) e “Que Maravilha” (participação no álbum “Músicas Para Tocar Em Elevador”, de Jorge Ben Jor).

Há ainda uma versão dub incrível para “Refazenda” (faixa do songbook de Gilberto Gil, de 1992) e um nostálgico encontro entre Paralamas e Legião Urbana para um especial da Rede Globo, onde interpretaram “Ainda É Cedo” e lembraram de “Jumpin’ Jack Flash”, clássico dos Rolling Stones.

O mais interessante neste disco de “raridades” é observar que, mesmo fazendo releituras para composições alheias, o Paralamas do Sucesso consegue imprimir uma marca sem soar repetitivo.

Selvagem
 
Para quem não quiser ouvir a caixa de forma cronológica, a sugestão é começar pela obra-prima da banda: o álbum “Selvagem”, de 1986. Trata-se de um trabalho que disputa pelo posto de mais importante disco de rock brasileiro dos anos 80 com “Dois”, da Legião Urbana, e “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs.

Não só porque está recheado de hits importantes (“Alagados”, “A Novidade”, “Selvagem”, “Melô do Marinheiro”), mas porque representa uma perfeita união de construções melódicas interessantíssimas e inovadoras, mesmo sem deixar de lado a referência jamaicana, combinadas a letras questionadoras, embora não panfletárias.

Depois de “Selvagem”, vale a pena seguir para “Bora Bora” (1988) e “Severino” (1994), outros dois inspirados discos. Ou ir direto a “Vamô Batê Lata”, disco ao vivo tocado à exaustão nas rádios e na MTV em 1995, especialmente por conta de seus quatro bem-sucedidos singles – “Uma Brasileira”, “Saber Amar”, “Luis Inácio” e “Esta Tarde”.
 
“Brasil Afora” (2009), o último álbum de inéditas do trio, talvez não provoque a mesma empolgação no ouvinte, mas merece ser contemplado com carinho especial, pois é um grande símbolo de como o trio permanece forte desde a volta de Herbert aos palcos, em 2002, poucos meses após o terrível acidente que lhe tirou o movimento das pernas.