Diante de maridos, esposas e filhos desorientados e cansados de esperar alguma ajuda para cuidar de familiares com o mal de Alzheimer, Judy Robbe costuma pegar muita gente de surpresa com uma simples pergunta, durante as reuniões mensais promovidas pelo grupo Harmonia de Viver, no Salão Paroquial da Igreja São Mateus, no bairro Anchieta.
 
“É uma enquete que faço periodicamente, há 25 anos. Primeiro, pergunto o que a doença trouxe de negativo para eles. Respondem que o parente não é o mesmo e que perderam a liberdade. Listam uns 30 itens de perda. Mas quando indago o que ela trouxe de positivo, a maioria me olha perplexa, como se dissesse ‘como assim?’”. 
 
Até que, em determinado momento, alguém levanta o dedo e destaca que a família ficou mais unida com a situação. 
 
“Aí, quando você vai olhar o resultado, comparando as duas listas, de positivo e negativo, elas têm o mesmo tamanho”, assinala a inglesa radicada em Belo Horizonte. Voluntariamente, ela coordena o trabalho na igreja desde a década de 1980.
 
Em cartaz desde quinta-feira nos cinemas da capital, o filme “Para Sempre Alice traz Juliane Moore (que levou o Oscar) no papel de uma professora que descobre estar com a doença. Convidada pelo Hoje em Dia para acompanhar uma sessão, Judy Robbe salienta que o mérito do filme é ajudar a conscientizar sobre uma doença envolvida em preconceito.
 
“É preciso olhar com mais atenção para esse problema, conscientizando sobre o que se passa com o doente”. Ela deixa um alerta: “Em 2030, o número de casos no mundo irá dobrar, já que as pessoas estão vivendo mais”. E enfatiza a importância de o país criar um “plano de demência”, já em prática em outros países.
 
Judy participou do fórum que resultou em filme premiado 
 
Judy Robbe acompanhou um pouco da gestação do livro de Lisa Genova, base do filme “Para Sempre Alice”. Lembra que, quando a internet estava engatinhando, várias pessoas, em diferentes lugares do mundo, criaram uma espécie de fórum sobre Alzheimer, que acabou se tornando uma fonte de inspiração para a história.
 
A coordenadora do “Harmonia de Viver” já buscava, naquele fórum, informações para serem aplicadas nas reuniões. 
 
Judy é autodidata e começou a se interessar pelo assunto quando um amigo alemão foi diagnosticado com a doença. “Devido ao estresse, a esposa virou alcoólatra”, lembra. De lá para cá, acompanhou o desespero de inúmeros parentes ao tentar lidar com o Alzheimer.
 
“Cuidar não é nada fácil. Muitos conflitos familiares são aflorados e provocam esgotamento. Não é raro ver os cuidadores adoecerem, com depressão ou doenças piores”, registra Judy, que sempre é convidada para dar palestras sobre o tema em faculdades e associações médicas.