A primeira foto do livro Genesis, principal obra do fotojornalista Sebastião Salgado, em visita à BH, nesta segunda-feira (9), mostra água da mais pura - mais precisamente um iceberg deslocando-se pela península Antártica. A segunda imagem também, assim como o vale cortado por um rio na capa. Colocadas logo na abertura é como se elas traduzissem o valor que Salgado vê neste recurso, tema sobre o qual Salgado debruçou a fala no Sesc Palladium durante o encontro com fãs.
 
No encontro com o público ao lado da mulher, Lélia Wanick, Salgado falou muito mais de água, sementes, viveiros, florestas, nascentes e natureza reconstruída do que de fotografia. Estes são os principais personagens do Instituto Terra criado pelo casal na terra natal de Salgado, em Aimorés, região Leste de MG. 
 
Na iniciativa de sucesso, o casal já plantou mais de 2 milhões de árvores da mata atlântica. "Hoje vemos uma floresta que chamo de 'criança', com árvores de 15 metros de altura. O Instituto Terra é um dos nossos filhos", compara Lélia.
 
"Plantar árvore é como ter um filho", emendou Salgado. "Tem que proteger do fogo, da seca, das formigas. Protegemos até os cinco anos, depois disso, ela continua a se desenvolver, mas sem precisar de proteção", explica. 
 
Portanto, plantar árvore é caro. E é neste ponto que o fotojornalista mineiro, radicado na França, aponta uma crítica. "Estas campanhas que dizem 'doe um dólar ou dois reais e plante uma árvore' é mentira. Custa muito mais caro que isso", garante, sobre o custo daquela "proteção" que as árvores carecem nos primeiros anos de vida.
 
Genesis nasceu em Minas
 
O fotojornalista lembra que a floresta que ele e a mulher construíram veio após presenciar guerras mundo afora e de ter que encarar uma depressão, que lhe tirou a vontade de fotografar. Assim, a ideia da mulher de reconstruir a natureza e o retorno à terra natal trouxeram esperança para ele.
 
"Vamos plantar uma floresta aqui!", lembra Lélia, sobre a ideia que teve após ver a destruição da natureza, na cidade onde o marido passou a infância. "Acho que foi a melhor ideia que tive na vida", avalia Lélia.
 
Assim, a ideia do projeto Genesis, diz Salgado, nasceu em Aimorés, quando ele viu as primeiras árvores pontuarem de verde as terras degradadas que foram do pai dele. 
 
Aí, o coração sofrido do fotojornalista renovou-se de entusiasmo e, com isso, veio a vontade de fotografar novamente. Assim, Salgado partiu para os rincões intocados do planeta. 
 
"Durante oito anos, nós nos demos o maior presente que alguém pudesse receber, que é poder ver as partes mais fabulosas do planeta", diz, sobre as expedições que realizou para fazer as imagens do livro.
 
Hoje, com a chamada "crise hídrica", a iniciativa bem-sucedida do Instituto veio à tona com força. "Não tem água porque não está chovendo, mas também, tiraram as florestas e os rios estão assoreados", sintetiza Lélia Wanick, sobre outras áreas degradadas pelo Brasil e pelo mundo.
 
O casal lembrou ainda do Projeto Olhos d'Água que começam a colocar em prática, para a preservação de nascentes. 
 
Meio século de amor e parceria
 
Sebastião e Lélia. Ele, o filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais. Ela, uma professora de piano nascida em Vitória (ES). Mesmo de origens diferentes, ambos encontraram na natureza mais um sonho em comum. 
 
"Há 50 anos temos sonhos comuns", diz Lélia, sorrindo. A produtora diz que ambos descobriu cedo uma maneira de ajuda mútua. "Foi uma sorte a gente poder ser bastante complementar nos nossos sonhos", acrescenta. 
 
"Ela veio para o campo e eu fui para a cidade. Eu me complementei na cidade e ela, no campo", resumiu Salgado, sobre a parceria fotográfico-afetiva e que, nos últimos anos, reforçou-se em nome da mãe natureza.