O cineasta Eugênio Puppo nunca escondeu o seu incômodo ao perceber, nos documentários brasileiros, a hiper valorização dos chamados talking heads, ocupando boa parte da narrativa com imagens de pessoas falando sobre um tema em questão.

Em seu segundo longa-metragem, “Sem Pena”, que estreia nesta quinta-feira (2) no Belas Artes após ser exibido no Festival de Brasília, no mês passado, resolveu esse problema eliminando as imagens, deixando apenas a voz dos entrevistados, sem identificá-los.

ENTRANHAS

Ao tratar dos problemas das Justiça criminal, do julgamento a o encarceramento, Puppo afirma que sua opção cria um peso maior para “o que é dito e não para quem disse”. Para o diretor, a visão do rosto influencia no entendimento do conteúdo.

“Se a pessoa está de terno e gravata e é um fodão em sua área, vamos valorizar a sua opinião mais do que de alguém humilde”, explica Puppo, que teve o apoio do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), importante por proporcionar acesso a lugares restritos.

“A primeira coisa que me chamou a atenção no tema é como se dá o processo de acusação e o resultado disso na vida das pessoas. Percebi uma série de situações estranhas e arbitrárias e mergulhamos nas entranhas do sistema da Justiça Criminal”, registra.

DESRESPEITO

Por outro lado, não quis fazer um filme sensacionalista e que desse mais voz aos bandidos.

Presidente do IDDD, Augusto Arruda, destaca que o filme é uma maneira de sensibilizar um maior número de pessoas sobre o desrespeito a direitos fundamentais.

“Os juízes ficam reclusos em seus gabinetes e não conhecem a realidade do sistema, a situação daqueles que eles próprios julgam”, lamenta Arruda.

O filme colheu nada menos do que 274 horas de material, durante dez meses. As entrevistas eram longas, mas não sem um propósito.

“A gente demorava quatro, cinco horas porque sabíamos que muitas daquelas pessoas, como juízes, desembargadores e advogados, já tinham uma resposta pronta. Nossa estratégia era deixá-las mais relaxadas, a ponto de criar uma cumplicidade. Quando já estavam exauridos, fazíamos a pergunta mais importante”, lembra o cineasta Eugênio Puppo.