Pode ser uma laje, um auditório de escola ou uma olaria desativada. Bastam uma parede e um filme para exibir. Em tempos de pirataria e downloads, os cineclubes deixaram para trás o formato concebido na França do início do século passado.

Prova disso é que eles já não têm os cinéfilos de carteirinha como público-alvo – em outros tempos, foram fundamentais na formação de cineastas em vários países. O movimento cineclubista agora está direcionado para as suas comunidades, como instrumento educativo, social e, muitas vezes, político.

Os cineclubes estão espalhados pela cidade, funcionando com programação fixa ou esporádica. Embora alguns recebam recursos incentivados, a maioria conta ainda com a boa vontade de seus idealizadores. Aspecto que ainda não mudou em 100 anos de cineclubismo.

Espaço ocioso vira sala sui generis

Diante daquela enorme laje ociosa, localizada no prédio onde administra um ateliê de serigrafia, no Horto, o designer Filipe Costa não teve dúvidas: criou, há dois anos, um espaço cultural onde acontecem shows e também exibição de filmes.

O nome desse improvisado cineclube não poderia ser outro que não CineLaje, pioneiro em Belo Horizonte num projeto que virou febre em outras cidades brasileiras. Fora o filme, não há nele nada que remeta a uma tradicional sala de cinema.

A parede do edifício ao lado, pertencente ao grupo de teatro Galpão, serve de telão, enquanto cadeiras de praia são usadas pelos espectadores como assento. Diferentemente dos confortáveis cinemas de shopping, é esse despojamento que faz do espaço algo sui generis.

“Não temos objetivo financeiro. Nossa ideia é mostrar filmes de diretores daqui que não chegam ao circuito”, diz Filipe, que já procura uma laje maior para ampliar a iniciativa e poder receber projetos como o “Verão Arte Contemporânea”, realizado no início do ano.

Verde

No cineclube Olaria, ins[/LEAD]talado na Estação Ecológica da UFMG, o inusitado, além de uma área verde de 140 hectares no entorno, está em sua proposta temática, direcionada a filmes socioambientais. Inaugurado em 2012, o espaço já contabiliza 16 sessões.

Promovida mensalmente, com produção de Graziella Luciano, a programação apresenta um curta seguido de debate e show, sempre com entrada franca. “As pessoas se encantam com o lugar, encontrando nele uma espécie de refúgio de tranquilidade”.

A proposta do cineclube Sabotage é ainda mais direcionada, voltada para a comunidade do bairro Taquaril A. Funcionando desde 2009, sob coordenação do instituto Oficina de Imagens – Comunicação e Educação, atualmente tem como sede a Escola Alcida Torres. “A importância do cineclube está no fato de estar na periferia, num local onde as pessoas normalmente não têm acesso a espaços culturais”, explica a coordenadora Nádia Rodrigues.

Comunidade

A programação semanal prioriza o tema dos direitos humanos, inserido no contexto da comunidade. Os filmes, preferencialmente nacionais, são acompanhados por debate com especialistas. O público principal são os alunos, mas uma vez por mês acontecem projeções abertas à comunidade.

O núcleo audiovisual do Espaço Comum Luiz Estrela, no Santa Efigênia, pretende também enveredar pelo cineclubismo, mas sem um espaço físico fixo. A proposta, segundo um dos participantes, Fabiana Leite, é realizar exibições na rua, usando paredes e muros como tela.

Os filmes invariavelmente estarão relacionados a questões sociais, vertente também seguida pelo cineclube Atingidos.
Organizado pelo documentarista Neimar Barroso, tem como eixo a realização do Festival Latino-Americano da Classe Obreira, que caminha para a sua 6ª edição.

Barroso trabalha com a difusão de documentários relacionados às lutas sociais. Ele trocou o nome do cineclube de Movimento para Atingidos devido à proximidade com os movimentos sociais de BH, em especial o Comitê Popular Atingidos dos Atingidos pela Copa.