“Deixem o espaço do teatro em paz”. O lema de uma campanha que começou em São Paulo, motivada pelo risco de fechamento do centro teatral CIT-Ecum, chega a Belo Horizonte num momento em que o teatro Oi Futuro Klauss Vianna anuncia o encerramento de suas atividades em setembro.
 
A esperança do fotógrafo mineiro Guto Muniz, que clicou 35 artistas mineiros para a campanha encabeçada pela revista especializada “Antro Positivo”, é de que a classe se organize para evitar que a capital mineira sofra a perda de mais um importante espaço cultural.
 
“A revista nos convidou para envolver Belo Horizonte também, não especificamente para tratar do Klauss Vianna. Cabe a todos nós utilizarmos desta campanha e da força da classe teatral para pressionarmos pelo não fechamento. O pessoal de São Paulo tem feito isso com sucesso”, observa.
 
Na cidade paulista, o movimento recolheu assinaturas em apoio ao tombamento do prédio como patrimônio cultural e bem imaterial no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental. Deu certo. O pedido foi aceito e o CIT-Ecum não deverá, por enquanto, virar um estacionamento.
 
A razão do fechamento do Oi Futuro é mais complexa e não se resume ao fim de um contrato de aluguel. O prédio da Avenida Afonso Pena, onde antes era a sede da empresa de telecomunicações, agora pertence ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), após acordo com o governo estadual.
 
Em nota repassada pela assessoria de imprensa, o TJMG confirma que, no antigo teatro, “serão realizadas sessões administrativas e de julgamento, solenidades e outras ações inerentes às atribuições do Poder Judiciário que, hoje, são realizadas em espaços locados ou cedidos por outras instituições”.
 
Também informa que o Oi Futuro será abrigado no Circuito Cultural da Praça da Liberdade, conforme acertado entre o instituto e o Estado. Esse local deverá ser o Palacete Dantas, solução desaprovada pelos artistas. “O Klauss Vianna pertence ao patrimônio imaterial da cidade”, lamenta a bailarina e coreógrafa Dudude Herrmann.
 
Dança perde seu melhor palco
 
A insatisfação da classe artística de Minas Gerais com o destino do Teatro Oi Futuro se deve, em primeiro lugar, à perda de um espaço que hoje é considerado o melhor local para espetáculos de dança. “A cidade culturalmente perde, porque ele tem o tamanho ideal para apresentações de solos e grupos e uma ótima visibilidade da plateia”, registra Dudude Herrmann.
 
A coreógrafa e bailarina esteve, até a última quarta-feira, em cartaz no espaço com o espetáculo “Miradas do Caos #2”, realizado pelo grupo 3º Corpo e com a sua direção. “O teatro acompanha a história de Belo Horizonte, no sentido da produção de sensibilidade, acolhendo alguns dos mais importantes festivais de dança do país, como FID, 1, 2 na Dança e o Viva Dança”, assinala Dudude.
 
Cine Metrópole

O segundo motivo de insatisfação está na própria origem do teatro, criado para compensar outra perda: a destruição do antigo Cine Metrópole, em 1983, que deu lugar a uma agência do Bradesco. Com a manifestação de artistas e populares, o governo se comprometeu a construir um novo espaço, no prédio da então Telemig, estatal de telefonia. Com a sua privatização, o lugar foi adotado pela Oi em 2007.
 
“Essa mudança poderia ter acabado com o teatro, mas a Oi fez uma curadoria brilhante em sua ocupação cultural, prezando a qualidade e transformando-o numa referência nacional”, destaca a coreógrafa. Recentemente reformado e equipado, o teatro tem capacidade para 333 pessoas e funcionava com duas galerias para exposições, um Multiespaço, um cineclube e o Museu das Telecomunicações.
 
Na nota enviada ao Hoje em Dia, o Tribunal de Justiça de MG justifica a transferência lembrando que representará economia com aluguéis de espaços, já que a Segunda Instância está espalhada em várias unidades prediais na capital. “Sem contar as facilidades de acesso para os profissionais do Direito e para o cidadão, que terão todos os órgãos e setores do Tribunal reunidos em um único endereço”.
 
Guto Muniz, que fotografou vários espetáculos ali, ressalta que é o momento de a classe artística reagir e sensibilizar o TJMG para que mantenha o espaço. “É preciso criar um movimento, fazendo abaixo-assinado e conversando com eles (governo estadual e tribunal). Do contrário, perderemos um excelente local, que já tinha seu público cativo”, pondera.
 
Tom de indignação compartilhado por formadores de opinião
 
A Oi Futuro deverá construir um teatro de arena com capacidade para 80 lugares, nos fundos do Palacete Dantas. Além de menor e não oferecer a mesma estrutura disponível na Afonso Pena, outra reclamação dos artistas é que ele deverá ficar pronto só em 2016. “E ainda chamar Klauss Vianna? Ele não merece isso”, critica o produtor cultural Afonso Borges, citando um dos maiores dançarinos do país, cujo nome batizou o teatro construído pela Telemig.
 
Nas redes sociais e em seu programa no rádio, o “Mondolivro”, Borges levantou ainda a questão do dinheiro público gasto até hoje. “Se todos os motivos históricos e culturais não forem suficientes para que se mantenha aberto e vivo o teatro, existe um que é quase imoral: o dinheiro público gasto, nas várias gestões, para reformá-lo. O Tribunal, se quiser utilizar o teatro para reuniões internas e solenidades, tem a obrigação moral de ressarcir os cofres públicos”, assevera.
 
O tom de indignação é compartilhado pelo arquiteto Leonardo Castriota, que condena a forma autoritária como estão encaminhando o processo de ocupação pelo TJMG. “Desapropriação de um prédio particular para instalar um tribunal de Justiça... Muito estranho. Se eles têm necessidade de uma nova sede, por que não organizam um concurso público seguindo todos os trâmites necessários para uma ação dessa envergadura numa sociedade democrática e transparente?”, indaga.

Para o arquiteto, a desapropriação deveria ser investigada, até mesmo como motivo de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito).
 
“Seria mesmo necessária? Haveria tanta urgência assim que justificasse uma desapropriação dessa natureza? Qual seria o valor de mercado do prédio e quanto está sendo pago? Deveriam investigar, inclusive, o valor da indenização a ser paga. A meu ver, o Tribunal deveria cancelar imediatamente essa desapropriação”.
 
Defensor de que o teatro não pode ser perdido numa cidade carente de bons espaços dessa natureza, Castriota sugere que seja checado se, no processo de privatização da telefonia, não foi estabelecida alguma cláusula em relação aos espaços culturais.
 
“Talvez a Telemar e a Oi tenham se obrigado a mantê-los ou coisa assim. Muitas vezes essas cláusulas são ‘esquecidas’ de propósito. É uma prática comum de nossos governantes”, ressalta.