A obra de Zé Kéti (1921 – 1999) carrega uma brasilidade e uma carioquice muito poderosas, diz Augusto Martins. Motivo pelo qual o cantor carioca decidiu revisitá-la, ao lado do violonista e arranjador Marcel Powell – cujo sobrenome dá a dica: sim, ele é filho do baluarte Baden Powell. O resultado – “Violão, Voz e Zé Kéti” – é apresentado como uma injeção de sonoridade original e ao mesmo tempo respeitosa de uma obra irretocável. 
 
“Eu, particularmente, tive a oportunidade de fazer um show com ele logo no meu início de carreira”, diz Augusto. Foi numa boate em Copacabana, que promovia um samba aos domingos, no final do dia. “Eu ali, começando, e o Zé Kéti com aquela estrada toda... E o mundo gira, né? Quem tocava com ele era Josimar Monteiro violonista, diretor artístico da Velha Guarda da Mangueira, que foi quem mixou e gravou o nosso CD – ele me chamou para fazer um dos shows com o Zé Kéti, no formato de um nome consagrado com alguém que estivesse iniciando a carreira”, rememora. 
 
Escolher o repertório não foi, previsivelmente, tarefa das mais fáceis. E Powell e Martins optaram por abrir o leque – deixando espaço, claro, para os sucessos. 
 
“Há pelo menos três grandes sucessos, que são conhecidos por todas as gerações: ‘A Voz do Morro’, ‘Diz que Fui Por Aí’ e ‘Máscara Negra’. Em qualquer roda de samba do país, se tocarmos essas que citei, todo mundo canta junto. Mas, é claro que é muito bom poder mostrar mais dessa obra maravilhosa para o maior público possível”, diz Augusto, com a devida anuência de Marcel.
 
“Esse trabalho, além de ser uma novidade para mim, por estar gravando um único compositor, também é uma novidade por atuar junto ao Augusto como produtor do disco, fazendo a escolha entre nós do repertório e da concepção musical”, lembra Powell. Ele conta que Augusto foi mostrando as composições de Zé Kéti. “Sugeri ‘Madrugada’ e a coisa foi fluindo naturalmente”. Antes de bater o martelo para a musica entrar ou não no disco, os dois tocavam, experimentando como se sentiriam interpretando aquela musica específica. “Me lembro que, quando o Augusto me mostrou ‘Amor Passageiro’ e tocamos, foi quase que imediata a vibração positiva que tivemos interpretando-a. A mesma coisa com ‘Madrugada’”, reconta o violonista, apontado como “o jovem mestre do violão brasileiro” pelo crítico Tárik de Souza. 
 
"É o encontro do histórico com o novo", diz Augusto. Para Augusto Martins, é incrível perceber que há versos de Zé Kéti que “cabem” nos dias atuais, como em “Tamborim”, que define como “um achado”: “Cavei muito buraco na avenida, ‘pra’ ajudar no progresso do metrô... Estudei, me formei em camelô, na escola da vida eu sou doutor... E quem sabe que um dia possa ser na política um governador, e com meu tamborim eu vou cantar para o povo a minha grande dor”. “Traduz uma crônica cotidiana. Carrega uma malandragem que permanece muito atual. Acho que poderia, estar num CD do Marcelo D2”, pontua ele.
 
Além de músico, Marcel Powell se considera “um apreciador jovem da MPB e do Zé Kéti”. “E assim como eu, há tantos outros apreciadores jovens da MPB e do Zé Kéti. Quando gravamos o disco, a ideia era homenagear esse ícone. Se resultar numa ampliação do número de conhecedores da obra do Zé Kéti, que bom!”, exclama.
 
Os dois prometem fazer a sua parte – a começar pela divulgação do álbum em shows. “Essa caminhada da divulgação está começando. O formato minimalista de violão e voz ajuda na possibilidade de viajarmos pelo Brasil. A capa do CD, aliás, brinca com isso, com o fusca, né? É o encontro do histórico com o novo e com a possibilidade de dizer ‘se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando o violão embaixo do braço’”, brinca Augusto. 
 
Alguma possibilidade de vir a BH? “Ainda estamos sem data, mas nossa produção já está em ação!”
 
Projetos
 
Enquanto isso, os dois delineiam outros projetos. “Ainda não formatei o que vou fazer no próximo CD. Mas há duas possibilidades: um autoral ou uma homenagem a outro mestre, Ismael Silva”, diz Augusto. Já Marcel vai fazer um circuito de nove shows pela Caixa Cultural, com um projeto que toca com a cantora Ithamara Koorax, o “Sambas Pra Vinícius”. 
 
“Além disso, vou fazer quatro shows em São Paulo com a cantora Izzy Gordon (sobrinha da Dolores Duran), dentro do projeto chamado ‘Jazz Plural’”.
 
Compositor nasceu em Inhaúma
 
O disco “Violão, Voz e Zé Kéti” leva a chancela da Kuarup Discos. Além das músicas citadas, o CD inclui “Nega Dina”, “Opinião”, “Flor do Lado”, “Leviana” e “Acender as Velas”.
 
José Flores de Jesus, o Zé Kéti, nasceu em 1921, em Inhaúma. Sua carreira decolou na década de 50, quando “A Voz do Morro” entrou para a trilha do filme “Rio 40 Graus”. Faleceu em 1999.