Ao aceitar o convite do prefeito Márcio Lacerda para coordenar a 7ª edição do Festival de Arte Negra (FAN) – naipe de programas gratuitos, entre esta terça (22) e domingo (27) –, Maurício Tizumba lhe exigiu "condições tranquilas de trabalho". Equivaleria a "ter grana na mão" (teve R$ 1,230 milhão) e rever prioridades. Como atender às demandas da comunidade negra, em vez de propor outro "festival grandioso, de fora para dentro, que ao terminar não deixa nada". E oferecer mais oportunidades de capacitação e mais visibilidade à produção local - já que nada do que se cria na aldeia terá chances de um dia se tornar internacional se não encontrar espaços.

Cantor, compositor, ator, agitador cultural, uma das figuras mais reconhecidas do mundo negro e do meio artístico mineiro, Tizumba fala com a autoridade de ter participado das seis edições anteriores. Na organização do primeiro e/ou exibindo suas artes e vendendo objetos afros. E se beneficiando dos cursos e oficinas, do quanto programas culturais também repassam conhecimentos. Não foi o único: vários artistas locais também tiveram essas oportunidades.

Por isso, várias atividades formativas estão contempladas nesta edição. Nas áreas de dança, teatro, música, artes plásticas etc. Nenhuma deverá ser "histriônica, fora da realidade". E tanto se dirigiria aos negros e às suas expectativas, como ao restante da população - embora BH tenha sido "construída para os brancos viverem", assinala Tizumba, e hoje os negros sejam "meia cidade", residam em bairros distantes e pareçam invisíveis à outra metade.

Assessorias

Convidado a elaborar e emprestar concretude a este FAN (junto com Sérgio Pererê/música, Rui Moreira/dança, Antônio Sérgio/visuais, Carlandréia Nascimento/eventos e Makota Valdina/moda), o poeta e performer Ricardo Aleixo articulou o Ciclo de Debates. Ocorre entre amanhã e sábado, no belo Espaço anexo à Casa do Conde, na Floresta. Ali, o argentino Washington Cucuto aborda a descoberta e a valorização do negro em seu país; e a professora Fernanda Felisberto, da UFRJ, abre sua pesquisa sobre escritoras negras no México.

Outros oito espaços, na região central (Funarte MG, CentoeQuatro, Centro de Referência da Moda e Igreja de Santa Efigênia) e nos centros culturais (Lagoa do Nado, Salgado Filho, Vila Santa Rita e Alto Vera Cruz), recebem as demais atrações. Ainda que seja artisticamente admirável, nenhuma deverá se impor aos reais interesses da comunidade estiver escalada. Como aquecimento, algumas já têm sido exibidas desde o dia 17.

Produção local se mostra ampla e qualificada, mais do que se previa

Além das atrações convidadas, outras 30 foram selecionados dentre as 127 propostas locais inscritas no edital. Afora o cinema, com poucas propostas, as outras áreas deram fartas na demonstração de potência e de interesse em participar da grade de programação. Por isso, garante Tizumba, teria dado muito trabalho escolher.

Feliz por ver o quanto se produz e quanto o que existe se mostra qualificado, Tizumba salienta a forte presença do hip hop.

De modo algum, o coordenador rejeita o gênero, por haver nascido fora do país – como se sabe, nasceu nos Estados Unidos. Ressalva, porém, que o movimento em torno do hip hop tenda a branquear. Como o samba, as escolas de samba e outras artes teriam branqueado.

A seu ver, o hip hop seria uma manifestação "legítima, que ganhou força muito grande em BH e no mundo". Transcendeu sua origem. Hoje, seria "um evento, como o FAN, e não é mais só música: é dança, é artes plásticas, é artes cênicas, é cinema e é poesia. Há poesias lindas, maravilhosas", elogia.

Umbilicalmente ligado ao congado (durante seis anos, foi presidente da Guarda Irmandade Carolinos, do bairro Aparecida), Tizumba mantém a Associação Tambor Mineiro desde 2001. Depois de enxergar no galpão da Rua Ituiutaba o local apropriado a abrigar esta manifestação pouco notada na cidade. Se houver patrocínio, o Tambor volta às ruas na época do Natal.


Serviço
 
Mais informações sobre a 7ª edição do Festival de Arte Negra (FAN) pelo site FANBH.com.br