Vindo de Cartagena, na Colômbia, com escala no Panamá, Cao Guimarães desembarcou em Confins, na madrugada de quinta-feira (27), sem as malas. “Extraviaram. Não sei onde estão nem quando chegarão”, lamenta o cineasta, que exibiu no país vizinho o documentário “Otto”.

A chateação, porém, não resiste ao reencontro com a esposa Flor e o filho Otto, personagens de seu último filme, e à ansiedade pela proximidade da data da apresentação da maior exposição de sua carreira, com início em 28 de março no Itaú Cultural de São Paulo.

A sede do instituto, na Avenida Paulista, terá dois andares e meio ocupados por instalações e obras audiovisuais. A curadoria está sendo feita por Moacir dos Anjos, que trabalha para a Bienal de São Paulo e é ex-diretor geral do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, de Recife.

Fábula

A exposição ganhou o nome de “Ver É uma Fábula”, frase presente no livro “Catatau”, de Paulo Leminski, adaptado livremente por Guimarães em “Ex Isto”, a primeira ficção do realizador mineiro. “Tudo o que a gente faz é uma recriação, um recorte da realidade. Quando se enquadra algo, está fabulando, liberando a imaginação”.

Guimarães salienta que seu trabalho engloba coisas ou pessoas encontradas durante suas viagens. “Os críticos destacam o minimalismo, o gosto pelo efêmero e pelo ordinário da vida. Em meus longas, percebe-se a preferência por quem está à margem, como ermitãos e andarilhos”.

Guimarães e o curador preferiram não incluir na exposição a vertente fotográfica, que marcou principalmente o início da trajetória do realizador. A razão é a falta de espaço. “Não fecharemos as salas com paredes. De acordo com a concepção da arquiteta Marta Bogéa, os vídeos ficarão espalhados na sala, como se estivessem soltos no espaço”.

Sequestro

Os oito longas serão divididos em três ciclos, no início, no meio e no fim da mostra, que ficará em cartaz até 2 de julho. “Será a oportunidade de reexibir vídeos que há muito tempo não passava, como ‘Sopro’ e ‘Hypnosis’, além da instalação ‘Histórias do Não Ver’, que foi mostrada pela última vez em 2001, antes de ser adquirida pelo MAM”, registra.

Na época, a instalação “Histórias do Não Ver” foi acompanhada do lançamento de livro de mesmo nome, que deverá ser reedito pelo Itaú Cultural. “Ele esgotou rápido, e como estava envolvido em outros trabalhos, ficou um pouco abandonado”, assinala.

Nesse trabalho, o artista convidou alguns amigos para que o sequestrassem. Guimarães era levado, vendado e com máquinas fotográficas a tiracolo, para um lugar desconhecido. Em seu retorno, o diretor buscou remontar os espaços através de suas lembranças.

Apesar de feito filmes em suportes como Super 8 e VHS, o cineasta já digitalizou todo o material. “O mesmo vale para a película. Há dois anos, enviamos cinco latas de ‘O Andarilho’ para os Estados Unidos e, quando voltaram, a Alfândega pediu R$ 3 mil para liberar. A cópia está lá até hoje”.