Quem já ganha muito quer ainda mais

Tiago Mitraud / 21/01/2022 - 15h40

Imagine esta cena: no meio da pandemia, enquanto a maioria dos brasileiros perdeu sua renda, deputados ameaçam entrar em greve. Estão indignados pois, ao longo dos últimos sete anos, mesmo com a escalada da inflação, seus salários ainda permanecem os mesmos. O fato de estarem entre o 1% da população com maior renda parece secundário. O que importa é que o salário deles perdeu parte do seu poder de compra desde 2015. Portanto, nada mais justo do que um aumento!

Ninguém em sã consciência concordaria com esta demanda, certo? Eu também acho que ela seria absurda, é claro. Pois bem, apesar do absurdo, é isto que estão demandando os sindicatos de diversas categorias de servidores públicos federais que ameaçaram entrar em greve nesta semana.

Este lamentável episódio é, infelizmente, apenas mais um capítulo da atual lógica remuneratória do funcionalismo brasileiro: a lógica do "ganha mais quem grita mais".

A desconexão com a realidade daqueles que pedem aumentos em meio a uma grave crise econômica, mesmo não tendo perdido um centavo sequer de renda durante a pandemia, teve um gatilho: Jair Bolsonaro. 

O presidente entrou em cena para atender demandas corporativistas de sua base de apoio e solicitar a inclusão de previsão orçamentária para aumentar os salários de policiais federais. Foi o que bastou para despertar o sempre presente corporativismo dos representantes de diversas carreiras que integram a elite do funcionalismo no Brasil, que passaram a se mobilizar para realizar paralisações e greves ao longo de 2022, em defesa de reajustes.

Ignorando completamente a realidade do país, as categorias alegam que tiveram perdas nos últimos anos devido à inflação. O que não contam, porém, é que sucessivos governos concederam a elas aumentos muito superiores à inflação ao longo dos últimos 24 anos. Enquanto o IPCA acumulou uma alta de 326% no período, auditores da Receita Federal, por exemplo, tiveram aumento de 478%, delegados da polícia federal, 498%, e advogados da União e procuradores da Fazenda, incríveis 608% de aumento.

Sempre é bom lembrar: estas categorias, com salários que ultrapassam R$ 30 mil - sem contar os penduricalhos - já estão no topo da pirâmide social brasileira, ganhando muito mais do que a imensa maioria da população, que paga a conta.

Sou filho de servidores públicos e tenho o maior respeito por nossos bons servidores, que carregam o piano na nossa administração pública, mesmo com todas as adversidades. Mas o Brasil precisa, definitivamente, de sindicatos com maior senso de realidade.

Precisamos também, enfim, de uma boa reforma administrativa, que abandone a atual irracionalidade nos critérios de remuneração de servidores. Devemos basear nossa lógica remuneratória nos exemplos que deram certo, como EUA, Reino Unido e Portugal, que estabeleceram tabelas remuneratórias para suas carreiras públicas baseadas na complexidade da função e responsabilidade dos cargos. Estas tabelas são constantemente comparadas e ajustadas com base na realidade econômica do país, e não em pressão política.

Se quisermos, portanto, enfrentar de uma vez por todas as distorções salariais no serviço público, é fundamental revermos o atual modelo de bases salariais e carreiras, criando tabelas gerais. As carreiras devem ser orientadas por funções, e a promoção deve estar associada ao ingresso em uma posição de maior complexidade. Só assim permitiremos que a administração pública possa servir a quem dela mais precisa, e não somente a quem é capaz de gritar mais alto.

 

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