Um político de muita cultura

Opinião / 11/01/2022 - 06h00

Aristóteles Drummond

Relendo o Em Vez, livro de crônicas de Carlos Lacerda, saboreei três monumentais entrevistas que ele fez, com Magdalena Tagliaferro, um monstro do piano, Tom Jobim e, por fim, com o rei Roberto Carlos. O livro é de 1975, com dedicatória a mim.

Magdalena Tagliaferro foi uma pianista brasileira, nascida em Petrópolis e falecida no Rio, em 1986, aos 94 anos, de presença internacional. Morou muitos anos em Paris, onde consolidou sua formação, aluna do notável pianista Alfred Cortot, que foi ministro da Cultura em Vichy. No Brasil, teve como aluno outro grande nome, Jacques Klein, na França conviveu com Ravel.

A conversa com Lacerda foi depois de uma apresentação no Rio, até às quatro da manhã, numa churrascaria, que ficou aberta em deferência ao ex-governador. Importante notar que ambos conversaram de igual para igual em termos de conhecimento de música. Magdalena tinha uma visão abrangente de tudo e, quando o ministro Gustavo Capanema a recebeu, quando ela veio da Paris ocupada, convidando-a “a formar pianistas no Brasil”, ela rapidamente respondeu que era preciso também formar público.

A segunda conversa-entrevista de Lacerda foi com o então jovem Tom Jobim. Esta foi  de muitas horas. Jobim disse que as suas maiores influências foram Ary Barroso e os poetas Carlos Drummond de Andrade e Raul de Leoni.

Alcançou a fama muito jovem, depois de tocar em casas noturnas com sucesso crescente. Compôs compulsoriamente mais de 500 músicas. Mas seu primeiro choque com a vida real, com a influência nefasta da política ideológica em tudo, foi a vaia que recebeu de mais de 50 mil presentes no Festival da Canção, ao ganhar o primeiro lugar com Sabiá, uma de suas mais belas composições, passando a frente da Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, que era uma música de protesto, contra o regime de então. Tom Jobim ficou chocado e disse que sua composição não era de levantar multidões, era para levantar corações. Daí em diante, apesar de seu reconhecido talento, da parceria com Vinicius de Morais, passou a sofrer restrições desta esquerda doente. Foi acusado de “americanista” e “vendido à máfia”, quando gravou com Frank Sinatra, que, em outro álbum, incluiu quatro de suas canções.

A última conversa de Lacerda foi com o “rei” Roberto Carlos, naquela época também um jovem com menos de 30 anos e já com sucesso. Muito tímido e modesto, o cantor atribuía à boa crítica não falar mal de ninguém, não espezinhar nem muito menos humilhar. Negou-se – como até hoje – a falar de política, admitiu ser de centro ou centro direita. “Gosto de falar de amor”, acrescentou ao político.

O magistral Lacerda, a certa altura, afirma que todas as músicas se referem a ele na primeira pessoa – eu, eu, eu – e indaga o motivo. O cantor disse que ninguém nunca fizera esta observação e ouviu a avaliação freudiana de Lacerda de que quanto mais insegura a pessoa se sente, mais fala na primeira pessoa. Ele admitiu que poderia ser isso, mas que estava começando a se afirmar. Isso em 1974. Lacerda conclui que Roberto Carlos é uma pessoa boa, o que, talvez, seja mesmo a chave de seu ininterrupto sucesso há mais de meio século.

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