A revolução do futebol brasileiro

Opinião / 08/01/2022 - 06h00

Bruno Junqueira
Igor Maia


Ao longo de muitas décadas, os clubes de futebol do Brasil conviveram por diversas vezes com gestões de dirigentes que eram ou incompetentes ou mal intencionados ou as duas coisas ao mesmo tempo. O percurso até a presidência, mesmo dos grandes clubes, exigia muito mais tapinhas nas costas de conselheiros do que estudo, planejamento e comprovação técnica para ocupar cargos relevantes, que mexem com a paixão de milhões de torcedores.

O resultado desse sistema de poder é uma herança claramente vista nos balanços financeiros atuais: boa parte dos clubes tem centenas de milhões ou até mesmo bilhões de reais em dívidas. O Atlético-MG, atual campeão brasileiro e da Copa do Brasil, é também o campeão dos devedores: algo próximo de R$ 1,3 bi. E essa é uma das anomalias que marcam o futebol brasileiro: ter êxito dentro de campo raramente é um reflexo de que há um trabalho sustentável sendo construído do lado de fora.

Que o diga seu maior rival, o Cruzeiro, que na última década conseguiu o feito de ser bicampeão brasileiro e bicampeão da Copa do Brasil, mas que por muito pouco não foi à insolvência. Não bastasse ter se submetido a uma sucessão de presidentes contestáveis, o clube foi vítima de uma gestão que, ao lado de ex-diretores, é acusado pelo Ministério Público de Minas Gerais de cometer lavagem de dinheiro, apropriação indébita, falsidade ideológica e formação de quadrilha. Tudo isso nas entranhas de uma das maiores agremiações da América do Sul, diante da passividade dos conselheiros.

Mas os dois gigantes de Minas estão longe de ser o único foco do mau exemplo. Os quatro maiores de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) e do Rio (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco), além dos dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional), para não mencionar também os médios e pequenos clubes, reúnem casos graves de gestão temerária ao longo de suas histórias centenárias.

A boa notícia para os clubes e torcedores é que há uma luz no fim do túnel para todos eles. A Lei da SAF – Sociedade Anônima do Futebol – promete mais do que rios de dinheiro para contratações. Ela é o pontapé inicial da moralização da gestão esportiva no país, visto que dá a prerrogativa para a chegada de grandes investidores, inclusive internacionais, mas exige como contrapartida a quitação das dívidas das associações no prazo máximo de 10 anos.

A lei determina que 20% da receita da SAF nos primeiros 5 anos de operação do clube-empresa, sem incluir a transação com atletas, será destinado à sociedade originária para pagamento da dívida. Depois desse prazo, serão incluídas também receitas de vendas de atletas. Caso em 6 anos a empresa se mantenha adimplente com as quitações, terá mais 4 anos de prazo para pagamento do restante do débito. Além disso, 50% dos dividendos que a sociedade originária receber também terão a mesma destinação. Trata-se, portanto, de uma ideia audaciosa, porém assertiva, para garantir que os clubes finalmente acabem com as dívidas milionárias que perduram por décadas.

Por ser o primeiro grande clube do futebol brasileiro a aderir ao modelo da SAF, o Cruzeiro pode ser considerado um case. Revelado pelo clube mineiro nos anos 90, o ex-jogador Ronaldo Nazário assinou um protocolo de intenção de compra de 90% das ações do Cruzeiro S.A.. As informações que têm sido noticiadas dão conta de que o percentual máximo estaria sendo negociado por R$ 400 milhões. Além disso, ele passa a ser naturalmente herdeiro das dívidas do clube, avaliadas em aproximadamente R$ 1 bilhão.

Para a frustração de muitos torcedores, ao invés de investimentos abundantes em jogadores de ponta, as medidas iniciais do grupo do Fenômeno, também de acordo com a mídia esportiva, são de revisão minuciosa das contas e de cortes drásticos dos gastos, com o intuito de viabilizar o clube e garantir a saúde financeira necessária para quitar os débitos e manter o futebol sustentável e vitorioso.

Diante de uma realidade catastrófica dos clubes, essa deverá ser a tendência em outras agremiações que vierem a implementar a SAF. A parte desportiva das entidades passará a ser vista como empresa, e, como tal, terá o fundamento de suas atividades amparadas no lucro. E isso, é claro, consiste também em cortes de despesas excessivas provenientes da política interna, para não dizer camaradagem, que vigorava antes.

O futebol brasileiro tem um potencial financeiro enorme, e essa readequação financeira é um primeiro passo importante e necessário para sua exploração. O Botafogo-RJ também terá seus ativos vendidos ao Eagle Holding, um fundo de investimentos presidido pelo norte-americano John Textor. Mas este é um mercado que pode perfeitamente alcançar os mais diversos clubes, desde os grandes das maiores capitais do país até os de menor expressão, que podem ser adquiridos por empresas capazes de tornar rentável a atividade desportiva.

Chapecoense, Gama-DF, América-MG e Atlético-GO, por exemplo, já estão avançados no processo de privatização do futebol e prometem oferecer experiências inovadoras de gestão nos próximos anos.

O futebol brasileiro, tão criticado em outros momentos, desta vez fez um golaço de placa.

*Advogados do escritório BLJ Direito e Negócios 

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