Muito mais do que grades

Opinião / 20/12/2014 - 07h59
Por Liliane Lana*
 
É vivo em minha lembrança o olhar vazio e descolorido de um ex-colega de trabalho diante da notícia da prisão de um dos filhos, que, motivado pelo consumo do crack, foi flagrado no tráfico. Mais um entre muitos jovens que têm os desejos e a vida manipulados pela ganância e insanidade do tráfico. Ainda em meio à dor provocada pela notícia da prisão, iniciava-se o calvário das visitas ao cárcere. Após trabalhar arduamente a semana inteira, os fins de semana eram a rara oportunidade de reencontro para doar o afeto que pode ter faltado antes que a droga o dominasse.
 
Levantar no meio da madrugada, subir e descer de ônibus e mais ônibus, carregando pesadas sacolas com alimentos mais saudáveis até acessar o longínquo presídio. Enfrentar intermináveis filas – sob sol e chuva e com as sacolas ainda nos braços para, então, experimentar algumas poucas horas de contato. 
 
É esta a realidade de muitas famílias que enfrentam todos os obstáculos para se fazerem presentes no processo de recuperação de filhos ou cônjuges privados da liberdade. O constrangimento imposto nas revistas íntimas exige que homens e mulheres – crianças, idosos, grávidas – nus, se agachem sobre espelhos. Se a prisão da forma como se pratica no Brasil exclui o condenado, minimizando chances de recuperação, acaba por excluir também sua família, fadada às punições impostas tanto pela estrutura provida pelo Estado, como pelo julgamento social vingativo. 
 
Que estragos tais vivências podem provocar na alma dessas famílias? Segundo L. Wacquant, “o impacto danoso do encarceramento não age apenas sobre o detento, mas também, e de modo mais insidioso e injusto, sobre sua família: deterioração da situação financeira, desagregação das relações de amizade e de vizinhança, enfraquecimento dos vínculos afetivos, distúrbios na escolaridade dos filhos e perturbações psicológicas graves, decorrentes do sentimento de exclusão aumentam o fardo penal imposto aos pais e cônjuges de detentos”. 
 
Se a família é o lugar onde buscamos refúgio para lidar com as vicissitudes da vida, o que esperar dessa família sobrecarregada de reveses para apoiar seus outros membros face a questões tão desestruturantes? A quem caberia o papel de apoio às famílias dos presos? Algumas medidas protetivas cabem, sim, ao Estado no âmbito das políticas sociais. 
 
Entendendo essa realidade foi que o Minas pela Paz escolheu o apoio psicossocial a estas famílias como um dos focos de seu programa de voluntariado. Mais uma vez, escolhemos apoiar a metodologia Apac (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados), ainda que, nestas unidades, as famílias sejam recebidas com dignidade e condições para contribuir no processo de recuperação do condenado. 
 
Considerando que Belo Horizonte ainda não tem uma Apac, escolhemos as mais próximas como beneficiárias: Nova Lima e Santa Luzia, além de Sete Lagoas e Itaúna. Se você entendeu o olhar daquele meu ex-colega de trabalho e acredita que tem algo a oferecer a famílias que atravessam essa situação, seja um voluntário: minaspelapaz.org.br/participe. 
 
*Gestora de Desenvolvimento Social do Minas pela Paz
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