Presente de grego para as Letras

Opinião / 16/12/2014 - 07h19

* Jorge Fernando dos Santos

No aniversário de 117 anos da capital mineira, o edital do Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte deixa de fora as categorias de dramaturgia e romance, restringindo-se a conto e poesia.

Os critérios da decisão não foram divulgados, mas o fato é que ela joga por terra o compromisso assumido pelo prefeito Márcio Lacerda com os autores nacionais.

Em 2012, a Fundação Municipal de Cultura (FMC) chegou a anunciar o fim do concurso que fora criado em 1947, no cinquentenário de BH – sendo, portanto, o mais antigo do país. Mobilizados pelo Coletivo 21, escritores de vários estados assinaram uma carta-aberta ao prefeito protestando contra o fim das premiações.

Afinal de contas, num mercado editorial dominado pelos best-sellers, os concursos literários são praticamente o único meio de se revelarem talentos genuinamente nacionais.

Depois de algumas reuniões, reverteu-se o quadro. O concurso foi mantido e passou a premiar conto, poesia, romance e dramaturgia com o valor total de R$ 200 mil.

Ao anunciar o revigoramento da premiação, Lacerda declarou que seria um absurdo acabar com uma iniciativa tão importante, que revelou diversos autores, entre eles Autran Dourado.

Na ocasião, o prefeito se dizia indignado com a atitude da então presidente da FMC, Taís Pimentel, que havia anunciado a decisão sem consultá-lo.

Isso no momento em que a coligação PT-PSB chegava ao fim e o acirramento entre os dois partidos crescia a olhos vistos.

A permanência do concurso foi tão relevante que, naquele ano, o número de inscrições bateu todos os recordes e a qualidade dos originais estimulou a concessão de várias menções honrosas.

O próprio Lacerda admitiu que a premiação custava pouco aos cofres municipais, levando-se em conta a boa repercussão do concurso para a imagem institucional de BH como a capital das Letras, berço de grandes escritores.

Mas aquela não foi a primeira vez que tentaram solapar o Concurso Belo Horizonte. Pelo menos em duas outras gestões os autores tiveram que fazer barulho para garantir a sua manutenção.

Na gestão Fernando Pimentel, quando a Secretaria Municipal de Cultura deu lugar à FMC, adotou-se o rodízio de categorias. Desde então, o concurso veio perdendo força e prestígio até quase acabar.

Todo mundo sabe que as finanças da PBH vão de mal a pior. Como de praxe, o setor cultural é um dos mais afetados pelos cortes no orçamento e isso talvez tenha motivado a redução de duas categorias no referido concurso.

A Lei e o Fundo Municipal de Incentivo à Cultura, por exemplo, tiveram seus recursos dramaticamente reduzidos para o próximo ano. E olha que a verba já era pouca para atender à crescente demanda de projetos.

Contudo, vale perguntar qual a vantagem de se reduzir o prêmio literário à metade apenas dois anos após o prefeito ter atendido à reivindicação dos escritores. A resposta é óbvia: mudam-se os políticos e os partidos, mas a lógica do poder é sempre a mesma. 

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