Travesti e prostituta, a mineira Lara Volguer Estrela, de 35 anos, é duplamente vulnerável à violência. Pesquisa feita por uma ONG de combate à transfobia identificou o perfil das pessoas transexuais agredidas e, não raro, mortas devido à identidade de gênero no Brasil.

Só em Minas, 20 transexuais foram assassinados no último ano. O número, que duplicou em relação a 2016, coloca o Estado na segunda posição do ranking nacional de homicídios, atrás apenas de São Paulo, com 21 crimes. O levantamento foi feito pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), que gerencia as pesquisas do Observatório Trans.

O relatório, feito a partir de casos divulgados na mídia, é mais um estudo que aponta o crescimento de assassinatos de transexuais na última década. Em 2008 foram registradas 57 mortes no Brasil, contra 185 em 2017. As vítimas, em sua maioria, são mulheres trans, negras e pardas e prostitutas.

Lara Estrela já foi jogada para fora de um carro em alta velocidade e ameaçada com uma faca no pescoço no Centro de BH, além de já ter recebido um tiro quando passava pelo bairro São Paulo, na região Norte.

“Consegui escapar por pouco de todos os ataques. Parece que ao mesmo tempo em que a sociedade está mais livre, está mais violenta. Os homens vão determinados a matar as travestis, jogam o carro em cima da gente, tacam pedra e até urinam em nós”, relatou.

Lara já foi atacada várias vezes, inclusive sendo alvo de tiros, mas conseguiu escapar 


Espancada

Drama semelhante viveu a secretária Isabelle Rafaela Cunha Stuart, de 31 anos. A mulher transexual quase perdeu a vida em novembro de 2017, quando foi espancada por nove pessoas em um bar na região Centro-Sul da cidade. 

“Tive que implorar a um dos rapazes para que não me matasse. Eles arrancaram pedaços do meu cabelo, me deram cadeiradas e garrafadas. Levei socos, chutes e tapas. Fiquei tão ensanguentada que precisei ir direto para o hospital”, contou.

Não bastasse a agressão física, os transexuais ainda podem estar sujeitos a outros tipos de violência em ambientes como hospitais e delegacias. Isabelle conta que, ao chegar à unidade de saúde, foi tratada pelo nome civil, registrado na identidade. “Ainda não havia trocado meus documentos. Expliquei aos funcionários que era uma mulher trans e pedi que usassem meu nome social, mas não respeitaram”.

Pesquisadora do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), Sayonara Nogueira é a responsável pelo estudo, divulgado no início deste ano. Ela acredita que o aumento dos casos está relacionado a uma maior atenção da imprensa às situações de transfobia. 

“Em números absolutos, o Brasil é líder mundial nesse tipo de crime. Mas, creio que conseguimos catalogar mais ocorrências porque os jornais e as televisões estão falando mais sobre isso”, afirma.

“A segurança pública precisa se voltar para essa causa. Nós somos violentadas de forma covarde”
Isabelle Stuart, 31 anos 

Especialistas afirmam que agressões já começam na infância

A violência contra transexuais começa, muitas vezes, na infância e dentro do próprio ambiente familiar. O preconceito pode resultar em isolamento, depressão, quadro de ansiedade e até tentativas de suicídio. 

A análise é da presidente do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, Dalcira Ferrão. “Na maioria das vezes, essas pessoas já estão fora do mercado de trabalho e da família. Quando a sociedade responde com violência, isso pode agravar a fobia social, e elas ficam desacreditadas de aceitação”.

A especialista reforça que o poder público deve trabalhar para erradicar essas “agressões institucionais”. Segundo ela, é importante que todas as políticas sociais visem, também, a diversidade de gênero. “Precisamos contemplar as demandas da população trans, como respeito ao nome social, de saúde, acesso e atendimento ao processo transexualizador e à saúde integral pelo SUS”, diz.

Em Minas Gerais não há delegacia da Polícia Civil especializada em atender o público LGBT. Os casos com vítimas transexuais podem ser registrados em qualquer unidade de segurança. A corporação, porém, afirma não fazer “distinção de vítimas”. “Todos os casos são tratados com celeridade e de forma imparcial”, informou em nota.

Homicídio

O primeiro homicídio de transexual registrado pelo Observatório Trans no Estado em 2018 ocorreu neste mês, em Campos Altos, no Triângulo. Relatos dão conta, conforme a PM, de que a mulher pediu por socorro e correu pelas ruas da cidade fugindo do agressor, que estaria armado. 

Os militares encontraram a travesti caída na via, já morta. O corpo apresentava perfurações na costelas e no peito, além de ter sido atacado a pedradas. Identificado no dia seguinte ao crime, o suspeito alegou ter matado a vítima devido a uma “dívida de drogas”. 

“É muito recorrente que os agressores coloquem a culpa nas mulheres, nós somos vistas como desonestas, principalmente as que trabalham com prostituição. É sempre a prostituta que tentou roubar o cara, ou que devia drogas, e na realidade, o que mais ocorre é que o homem não quer pagar o programa”, pondera a trans Isabelle Rafaela Cunha Stuart.

Além disso

O estudo do IBTE revela que 65% das pessoas trans assassinadas em 2017 tinham como principal fonte de renda a prostituição. Pesquisadora do instituto, Sayonara Nogueira diz que a transfobia e a exclusão social ainda levam a maior parte das transexuais e travestis para essa profissão. 

“Faltam políticas públicas específicas para eles. Se um trabalho educacional for feito para conscientizar as pessoas desde crianças, esses indivíduos não serão expulsos da escola, terão maior aceitação familiar e inclusão no mercado de trabalho. O que os empurra para a prostituição é a exclusão. Se a pessoa está na rua, está mais sujeita a passar por isso”.

“Muitas vezes não temos apoio da família nem perspectiva de vida, e não temos sangue de barata. Tem hora que é tanta pressão que acabamos agindo violentamente ou desenvolvendo um quadro depressivo”, afirma a travesti Lara Volguer Estrela. Ela defende a criminalização da transfobia e a legalização da prostituição para que o público transexual seja amparado por leis de proteção.