Impedir a degradação de um casarão centenário abandonado há mais de 20 anos e torná-lo seguro para receber a população para atividades culturais. Esse é o objetivo da primeira etapa da reforma do imóvel da rua Manaus, no bairro Santa Efigênia, que abriga o Espaço Comum Luiz Estrela. As obras no edifício, gerido por um coletivo de artistas, ativistas, educadores, arquitetos e produtores culturais, começaram nesta quarta-feira (12).

O terreno é propriedade do Estado e já foi sede de dois hospitais e uma escola, mas estava fechado desde 1994. Há quatro anos foi recuperado por um grupo de ativistas com intenção de transformar o espaço em um centro cultural comunitário na capital. 

Mas, até hoje, as atividades do coletivo estão restritas ao pátio externo do casarão. Para abrir as portas e ocupar os cômodos do imóvel é preciso fazer reformas na estrutura do edifício, que hoje corre risco de desmoronamento.

“A casa está caindo e nós precisamos tirar os elementos que estão causando esses danos no prédio. Precisamos de recursos, por exemplo, para tirar uma laje que foi acrescentada à estrutura. Ela ocasionou um sobrepeso muito grande e está danificando o edifício”, explica a arquiteta e urbanista Priscila Musa.
 
O lado esquerdo do casarão afundou alguns centímetros no solo devido à ação das chuvas. As trincas e rachaduras que se estendem por todo o prédio e as aberturas no teto também devem ser reparadas para que a casa possa ser ocupada e restaurada.

Financiamento coletivo

As obras serão financiadas coletivamente pelo site http://evoecultural.com/luizestrela. Além dos R$ 89 mil vindos do Fundo Estadual de Cultura, que possibilitaram o início da reforma, o grupo precisa reunir mais R$ 150 mil para concluir a primeira parte da restauração do edifício. A estimativa é a de que ela seja finalizada em setembro. 

Depois que o prédio for aberto à comunidade, deve passar ainda por algumas alterações, com implantação de instalações elétricas e rampas e elevadores para assegurar a acessibilidade. 

A edificação integra o Conjunto Arquitetônico da Praça Floriano Peixoto e pertence ao governo de Minas. No entanto, a gestão do espaço foi cedida ao coletivo de ativistas por 20 anos. Conforme a arquiteta, todas as etapas de elaboração do projeto e restauração serão acompanhadas pela Diretoria de Patrimônio Cultural, órgão vinculado à Fundação Municipal de Cultura. 

História

O prédio em que funciona o Espaço Comum Luiz Estrela foi construído em 1913 para abrigar o Hospital Militar de Belo Horizonte. O centro médico funcionou no local até 1947, ano em que foi transferido para a avenida do Contorno. Com isso, o casarão, que pertence à Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), passou a ser sede de um outro hospital: o de Neuropsiquiatria Infantil.

Até 1980, a história que se traçou dentro do edifício teve contornos nebulosos, como mostrou a série de reportagens publicada pelo jornal Hoje em Dia. O hospital chegou a torturar crianças em algumas salas e as inscrições, desenhos e objetos deixados pelos pequenos marcam a estrutura do casarão até hoje. 

"Existe nas paredes desse casarão uma história da cidade, da loucura e de muita dor. O principal objetivo é criar uma outra trajetória para a casa e restaurá-la sem apagar a história anterior. Queremos ressignificar o espaço e lidar com a infância de uma outra maneira", diz Priscila.

Leia mais
Hospital psiquiátrico infantil abrigou salas de tortura em BH
Governo recua e já admite nova destinação para casarão
Psiquiatra denunciou "casa dos horrores" em hospital infantil
Testemunhas relembram crueldades no velho casarão
“Chance de se abrirem os sombrios porões”, diz psiquiatra