É quase impossível passar pelas escadarias que ligam a rua Sapucaí à Estação Central do Metrô de Belo Horizonte e escapar do olhar desafiador de Elza Soares. É o que acontece há mais de dois anos com o bancário Walter Denis de Carvalho, 61, que faz o trajeto todos os dias a caminho do trabalho.

"Eu passo direto ali, subo a escada e sempre se descortina aquela coisa bonita. Sempre que a vejo, penso em alguma música que tenha me marcado", conta.

Nesta quinta-feira (20) o sentimento foi diferente. Ao saber do falecimento da cantora aos 91 anos, Walter parou para fazer uma reverência à voz do milênio, título concedido em 1999 pela emissora britânica BBC à cantora brasileira.

O rosto de Elza Soares está estampado em um grafite do grupo Minas de Minas Crew. A cantora foi homenageada em um projeto que eternizou um dos maiores ícones da história da música brasileira nas ruas da capital mineira.

Uma das integrantes do grupo, Carol Jaued, 35, conta que o grafite de Elza faz parte de um projeto que já deixou nos muros de BH, nomes de grandes mulheres como Carolina Maria de Jesus, Carmen Miranda, Alcione, Tais Araújo, integrantes femininas do Corpo de Bombeiros e também mulheres da periferia da capital.

O grafite com o rosto de Elza Soares foi feito em 2017 e a repercussão da obra surpreendeu até mesmo as autoras, como conta Carol.

“A arte fez muito sucesso, gente de outros estados vinha para conhecer e tirar fotos. Chegou até à própria Elza, que viu o trabalho, comentou e repostou nas redes sociais. Foi muito gratificante. Como o espaço é muito central, imaginamos que não ia durar muito, que seria apagado, mas segue lá há quase cinco anos, o pessoal respeita muito”, disse.

Para Carol, a imagem de Elza Soares inspira o respeito, porque desperta nas pessoas um sentimento de identidade. E o público reconhece não apenas a obra da cantora, mas sua vida pessoal.

“Essa é a importância das pessoas se identificarem, se sentirem próximas dela. É bem atrelada a história pessoal à carreira. Ela trazia muito das coisas dela, em relação à raça, à vivência, à luta dela”, comenta.

Grafite Elza

Musa, Viber, Krol e Nica, o grupo Minas de Minas Crew.

A artista urbana e suas colegas Musa, Nica e Viber têm entre 32 e 35 anos. Embora nascidas quase seis décadas após a cantora, viveram em um mundo em que Elza Soares seguiu sendo relevante e lançando discos inéditos aclamados como “A Mulher do Fim do Mundo”, de 2015 e “Planeta Fome”, de 2019.

A longevidade da artista também é enxergada como um dos motivos do sucesso da obra por Carol Jaued.

“Ela veio há tantos anos trazendo assuntos e pautas importantes. E a gente teve a oportunidade de conhecer sua obra por toda essa linha do tempo. A carreira dela é toda revolucionária e reconhecida por neta, mãe e avó”, afirma.

O grafite representa o impacto da imagem de Elza Soares além da voz que a tornou única na música. Carol conta que mesmo quem não conhece o repertório da cantora ou sequer tem idade para saber quem foi a artista se reconhece no mural pintado pelo Minas de Minas Crew.

“Quando a gente 'tava' pintando, todo mundo parava ao passar. Homens, mulheres, de todas as idades e classes sociais paravam e reconheciam a imagem. Até mesmo uma criança que passou, olhou e disse ‘olha lá um cabelo igual ao meu’”, conta.

Grafite Elza Soares

Bancário e músico, Walter fez uma homenagem silenciosa no dia em que a voz do milênio se calou.

A luta Elza pelo reconhecimento como artista e como mulher negra é o que também motiva a admiração de Walter Carvalho.

"Sempre fui fã através da minha mãe, que tinha mais ou menos a idade dela e também é negra. Sempre gostei dessa batalha dela pela negritude, além de ter uma voz sensacional. Sou músico amador e não conheço uma voz feminina tão marcante quanto a dela", conta o bancário.

Em 20 de janeiro de 2021, a artista urbana Carol Jaued, uma das responsáveis por ajudar a eternizar a figura de Elza Soares também nas ruas de BH, diz que sente tristeza pela partida do ídolo, mas gratidão por ter acompanhado e feito parte nas mais de nove décadas de vida da cantora e intérprete.

“É muito triste, fico até pensando: são 91 anos de muita história, de uma construção gigantesca. Que bom que ela viveu tudo isso, e tenho muita gratidão por ela ter nos proporcionado tudo isso. Agora queremos que o mural fique eternizado, temos uma vontade que o grafite vire um patrimônio da cidade”, conclui Jaued.

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