Instaladas há cerca de quatro anos na porta de uma loja de doces da avenida Getúlio Vargas, na Savassi, estacas de ferro que impedem moradores de rua de sentar ou dormir foram alvo de polêmica nos últimos dias. O padre Júlio Lancellotti - da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo e principal referência do país no acolhimento aos sem teto - publicou uma foto do estabelecimento em BH nas redes sociais, dizendo se tratar de "aporofobia" - medo e rejeição aos pobres.

Na mesma postagem, a empresa pediu desculpas e disse que "a loja já foi devidamente orientada e fará a retirada", mas não informou quando. Nesta segunda-feira (27), as estacas ainda estavam por lá. Funcionários do estabelecimento disseram que o material foi colocado após a última reforma, em 2017. Segundo eles, servem como "proteção à vidraça", que já teria sido danificada.

Muitas pessoas que andam ou trabalham na Savassi, no entanto, fazem coro à denúncia de preconceito. "Nunca vi ninguém fazer nada na entrada das lojas", disse Oldair José, de 50 anos, dono de uma banca de revistas no mesmo quarteirão. "Existem muitos moradores em situação de rua na Savassi e, com o tempo, nós até passamos a conhecer alguns. Não sei de qualquer problema".

Trabalhando há três anos na região, Edivan Alcântara, de 62 anos, também criticou a medida. Ele vende pipoca em um carrinho na esquina das avenidas Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo. "As pessoas não se preocupam em ajudar os outros. Não me lembro de problemas causados pelos moradores de rua por aqui, e acho que isso não resolve nada".

Vanderson Ferreira
Vanderson lamenta preconceito e descaso com moradores em situação de rua em BH

Em um rápido giro pelas ruas que cercam a Praça Diogo de Vasconcelos, o Hoje em Dia não identificou estacas do tipo em outros estabelecimentos. Por lá, as pessoas que precisam de abrigo lamentam as dificuldades enfrentadas. "Nos fins de semana, alguns bares ainda colocam barras de ferro na calçada para impedir a circulação", desabafa Vanderson Ferreira, de 41, que mora nas ruas da Savassi há pelo menos um ano. 

Resposta
Na mesma publicação feita por Lancellotti, a conta do Instagram da empresa responsável pelas unidades em Belo Horizonte afirmou que a atitude "não é aceitável e vai totalmente contra as políticas da empresa", além de pedir desculpas pelo ocorrido. 

Dias antes da publicação, a vereadora Bella Gonçalves (PSOL) também foi às redes sociais comemorar a apresentação de um projeto de lei contra a chamada "arquitetura hostil" em BH. O PL Padre Julio, como foi nomeado, proíbe a instalação de itens como pedras, estacas e gotejamentos em locais que seriam usados para abrigo de moradores em situação de rua.

"A proposta foi construída com os movimentos da população em situação de rua para se contrapor à ideia de que as relações da cidade podem admitir a instalação desses itens para excluir, segregar e violar as pessoas marginalizadas pela sociedade", disse a vereadora. 

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e a Câmara dos Dirigentes Logistas (CDL/BH) foram procuradas, mas ainda não responderam. Por nota, a assessoria de imprensa da loja de doces reforçou o pedido de desculpas. Confira o comunicado na íntegra:

"Antes de mais nada é importante salientarmos que somos uma marca brasileira e que, há 93 anos trabalha de forma genuína para atendermos com respeito a todos os nossos consumidores, indiscriminadamente, e é esse o padrão que exigimos de toda a nossa rede de franqueados.

Quando soubemos sobre o caso exposto, entramos em contato com o franqueado e ele nos explicou que a loja, por estar em um centro comercial movimentado, os transeuntes - clientes e não clientes - acabavam sentando em frente a vitrine, dificultando o fluxo de pessoas na loja.

Esse cenário é o mesmo para todos os lojistas da região e, por esta razão, alguns comerciantes optaram pela instalação da estrutura.

O franqueado reforçou que todos são bem-vindos à sua loja e, por esta razão, ele julgou pertinente o pleito diante do contexto abordado e se comprometeu a retirar a estrutura que restringe o acesso à vitrine o mais breve possível.

Pedimos desculpas por essa situação e, mais uma vez, queremos reiterar que nas nossas lojas todos são bem-vindos, sem nenhuma exceção."

Leia mais:

'Desastre vai persistir até que as águas baixem', diz secretário sobre chuvas em Minas e na Bahia
Quais as chances de ganhar na Mega da Virada? Prêmio este ano é de R$ 350 milhões