A inserção de pessoas negras no mercado de trabalho em Minas Gerais, historicamente deficitária, ficou ainda pior depois da pandemia. É o que revelam dados reunidos em boletim divulgado pela Fundação João Pinheiro (FJP) na última sexta-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra.

No segundo trimestre de 2020, início da pandemia no Brasil, houve uma queda de 3,2% no número de brancos incluídos na População Economicamente Ativa (PEA) em relação ao mesmo período do ano anterior. A queda dos negros foi de 10,6%. Isso significa cerca de 567 mil trabalhadores pretos ou pardos fora do mercado a mais do que os brancos. 

Para o coordenador da Coalizão Negra por Direitos em Minas e membro do coletivo Pretas em Movimento, Romney Batista, os dados são indicativos de uma realidade histórica no Brasil.

“A pesquisa mostra que não mudou nada desde sempre. Quando há uma crise, o povo negro é sempre atingido de maneira mais rápida e mais profunda. No racismo, tem-se o costume de proteger aqueles que se vê como figuras iguais, e iguais aos que têm poder e decisão são os brancos”, avalia.

A recuperação na geração de empregos nos segundo trimestre de 2021 também revela dados de desigualdade no acesso aos postos de trabalho. Enquanto 244,9 mil brancos entraram no mercado, o número de negros foi de apenas 185,7 mil quando comparado ao mesmo período do ano anterior.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Insituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que também revela que a taxa de desocupação dos negros chegou a 14,2% no segundo semestre de 2021, enquanto entre os brancos ela foi de 10,5%. Se comparado com mesmo período de 2012, o desemprego aumentou 90,4% entre negros e 70,9% entre brancos.

Informalidade e salários
Em 2021, a taxa de informalidade cresceu em ambos os grupos em Minas Gerais, mas a população negra registra taxa maior desta modalidade de trabalho. São 2,2 milhões de trabalhadores negros no mercado informal e 1,5 milhão de brancos.

Os dados remetem novamente a um fator histórico para Romney Batista. “O povo negro sempre foi mais empreendedor, porque ele foi obrigado. Se a gente voltar lá atrás, quando houve a chamada abolição da escravatura, falaram simplesmente ‘tá livre’ e agora a gente se vira, porque o mercado não absorvia”, comenta.

A massa salarial, índice composto pelo número de ocupados, média de horas trabalhadas e salário médio por hora trabalhada, aponta uma diferença de 8,6% entre negros e brancos.

A análise dos decis da renda dos trabalhadores 10% mais pobres em 2021 aponta que os negros vivem com renda média igual ou inferior a R$ 550 e os brancos com R$ 800. Entre os trabalhadores 10% mais ricos, a média entre os negros é maior ou igual a R$ 3.200 e, entre os brancos, é de R$ 5.000.

Futuro
Para Romney Batista, o investimento em pesquisa e educação é o caminho para que essa diferença, agravada pela pandemia, seja diminuída.

“Em nosso país, principalmente no período da pandemia, houve a diminuição drástica do investimento público em pesquisa e geração de novas oportunidades”, analisa. “A forma de a gente combater essa situação e ampliar tanto o desenvolvimento de nosso país como do povo negro é com incentivos de acesso a universidade, mestrado e doutorado. Temos hoje pesquisadores negros e a forma de melhorar é voltar a ter investimento de emprego e de novas pesquisas”, conclui Batista.

O boletim completo da FJP pode ser acessado neste link.

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