Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da UFMG, publicada na revista The Lancet Child and Adolescent Health, na semana passada, traçou o perfil das crianças brasileiras hospitalizadas com Covid-19 e revelou que a doença mata sete vezes mais pessoas dessa faixa etária no Brasil do que no Reino Unido. 

Segundo a Federal mineira, fatores como vulnerabilidade social e acesso reduzido à saúde pesaram tanto quanto as comorbidades para o pior prognóstico dos pacientes brasileiros na comparação com estudos feitos em outras partes do mundo.

Foram analisados dados de mais de 80 mil crianças internadas em hospitais brasileiros em 2020 com suspeita da doença. Dessas, 11.613 tiveram comprovação laboratorial da infecção pelo Sars-CoV-2 e foram incluídas na análise. 

Enquanto uma coorte - estudo observacional onde os indivíduos são classificados (ou selecionados) segundo o status de exposição (expostos e não expostos), sendo seguidos para avaliar a incidência da doença em determinado período de tempo - no Reino Unido com crianças hospitalizadas indicou mortalidade de 1% (todas com comorbidades), no estudo feito com dados do Brasil, esse índice foi de 7,6%. Na avaliação dos pesquisadores, os poucos recursos disponíveis para a assistência à saúde, incluindo a pequena disponibilidade de UTIs pediátricas, podem ter impactado esse quadro. A pesquisa analisou apenas dados de crianças hospitalizadas, ou seja, que contraíram formas moderadas e graves da doença.

Entre os fatores de risco para maior mortalidade foram identificadas a idade, a etnia, a macrorregião geográfica de origem e a presença de comorbidades. Em relação à idade, a mortalidade foi maior entre menores de dois anos e em adolescentes (12 a 19 anos). Pacientes das regiões Nordeste e Norte do país também tiveram maior risco de desfecho adverso, na comparação com os da região Sudeste. Crianças indígenas apresentaram ao menos o dobro de risco de morte em relação às de outras etnias. Outro aspecto observado foi o aumento progressivo da incidência de mortes com base no número de comorbidades, ou seja, o risco do desfecho negativo é maior a cada doença pré-existente a mais.  

Para os pesquisadores, os resultados revelam que, no Brasil, as desigualdades sociais pesam nos desfechos de covid-19 tanto quanto as comorbidades na faixa etária pediátrica. Nenhum outro estudo sobre o tema valeu-se de uma população pediátrica tão grande.

Estudo morte crianças Covid

Vigilância da gripe

As informações foram extraídas do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe), banco de dados nacional com pacientes dos sistemas público e privado. O Sivep foi criado na época da epidemia de H1N1, em 2009. Com o advento da pandemia de covid-19, ficou estabelecido que ele deveria ser o sistema para registro de todos os casos da doença que evoluem com desconforto respiratório.

Os dados incluem internações em hospitais públicos e privados de todo o país. A equipe da pesquisa extraiu do sistema todos os casos confirmados de covid-19 referentes à população pediátrica (menores de 20 anos), entre 16 de fevereiro de 2020 e 9 de janeiro de 2021.

Dos 82.055 pacientes pediátricos listados no sistema durante o período do estudo, 11.613 (14,2%) tiveram a infecção por Sars-CoV-2 confirmada em laboratório e foram incluídos na amostra. 

No grupo de pacientes com diagnóstico comprovado para o novo coronavírus, 886 (7,6%) morreram no hospital (em média seis dias após a admissão  na unidade), 10.041 (86,5%) receberam alta do hospital, 369 (3,2%) estavam internados no momento da análise, e não havia informações sobre desfecho em 317 casos (2,7%). A probabilidade estimada de morte foi de 4,8% durante os primeiros 10 dias após a internação, 6,7% nos primeiros 20 dias e 8,1% ao fim do estudo. 

De acordo com os pesquisadores, os desfechos foram mais favoráveis nas regiões Sudeste e Sul, cujas populações têm mais acesso a UTIs. O estudo concluiu também que a população indígena é muito vulnerável à covid-19, tanto em relação ao tratamento quanto à prevenção.

Com informações da UFMG.