O barulho estridente de disparos de armas de fogo deixava aflita a dona de casa Maria Aparecida dos Reis, hoje com 47 anos. Além dos tiros que ouvia junto aos quatro filhos e o marido, a lembrança de ter verduras roubadas no quintal e a recusa de motoristas de táxi em levá-la na porta de casa, na Vila Barragem Santa Lúcia, ainda é forte. Porém, desde que deixou o Beco Verde e foi morar em um apartamento do programa Vila Viva, há seis anos, garante que as comodidades do novo endereço proporcionaram mais segurança à família.

vila viva
Maria Nazaré agora tem prazer em ficar na nova casa, onde mora com as três filhas, no Santa Lúcia

A sensação dela vai ao encontro da pesquisa feita pela médica sanitarista Maria Angélica Salles, do programa de doutorado da UFMG. O estudo constatou que vilas e favelas beneficiadas pelo projeto tiveram queda de 25,9% nos homicídios, de 2010 a 2012. Em contrapartida, em outros espaços sem intervenções, o índice cresceu 4,9%. “Esse é um dos indicadores mais sensíveis da desigualdade social”, classifica.

Para chegar aos números, ela analisou as taxas de assassinatos por meio do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, e cruzou com endereços de dez favelas de BH, sendo que metade não havia recebido, até 2012, nenhuma intervenção. “Percebemos que é um programa muito potente de reconstrução e requalificação desses espaços. Em vez de apartar os moradores, propõe mudanças urbanísticas nos próprios lugares”, destaca a médica, que segue analisando dados da pesquisa.

Recomeço

Uma escada longa e íngreme, por onde escorria lama em dias de chuva – única forma de acesso à antiga casa, no Beco da Mata, no Santa Lúcia –, é a principal memória da doméstica Maria Nazaré Martins, de 52 anos.“Quando chovia, tinha preguiça de ir embora. Pensava na sujeira descendo”. Hoje, apesar do novo endereço, o condomínio onde reside com as três filhas não é distante da antiga casa. 

“Minhas filhas mais novas estudam na mesma instituição. Mas agora é diferente. Elas não precisam passar por aquela escada terrível. Acho que isso dá para elas mais prazer em frequentar a escola”, acredita Maria Nazaré, enquanto passa um café na atual residência. "Quando morava na antiga casa, não parava lá. Só ficava fora”, confessa. 

Dignidade

Desde 2005, quando o programa começou a ser colocado em prática em vilas e favelas da capital, 6,5 mil unidades habitacionais foram entregues e 170 mil moradores de 12 comunidades, atendidos. A Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), responsável pelo Vila Viva, fez as intervenções com recursos do governo federal. Até o fim de 2018 foi investido R$ 1,33 bilhão.

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Beneficiadas

Além das novas unidades habitacionais, milhares de casas foram beneficiadas pelo programa. Obras como drenagem e contenção de encostas foram feitas em mais no entorno de 45 mil residências. Porém, o Vila Viva em Belo Horizonte não tem, até então, indicativo de expansão.

Diretor-presidente da Urbel, Claudius Vinicius Leite afirma que outras intervenções ainda serão entregues, como novos apartamentos no Santa Lúcia e no São Tomás, mas que a verba para esses empreendimentos foi garantida por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de governos federais anteriores.

De acordo com ele, apesar de não ter recebido um sinal positivo para a continuação do programa em BH, o município tem procurando andar com as próprias pernas, buscando apoios isolados com empresas e bancos mundo afora para propor parcerias e solicitar empréstimos.

 

Transporte e comércio são melhorias solicitadas

Apesar de os dados representarem mudanças positivas e significativas, alguns moradores do programa Vila Viva, em Belo Horizonte, lamentam a distância dos antigos vizinhos e reivindicam melhorias de infraestrutura. Novas linhas de ônibus e comércio estão entre as prioridades.  

A expansão dos coletivos está sendo articulada com a PBH, diz Alex Oliveira, de 23 anos. O rapper, conhecido como Black no meio artístico, conta que tem participado das tratativas oficiais, e tem usado esse gancho para se expressar, por meio da música, e representar os novos moradores do bairro Granja de Freitas, zona Leste da capital.

Atualmente, só a linha 9032 (Granja de Freitas) atende a população reassentada. “Sei de pessoas que preferem fazer compra no Centro, porque aqui estamos longe do comércio regional”, lamenta o artista, que vivia em uma vila à beira do ribeirão Arrudas, na mesma região, e hoje compartilha o prédio com antigos moradores de outros lugares, como o Taquaril.

A faxineira Eurides Antunes de Sá, de 41 anos, comenta que, do beco onde morava, só sente falta dos vizinhos. “Não são mais os mesmos. Teve um tempo que dava confusão, sabe? Mas, agora, estamos nos acostumando”, diz a mulher, que divide o apartamento com os filhos e o marido. “Pelo menos, aqui as coisas chegam na porta. É muito importante”.

Retorno

A Urbel disse que a entrega das unidades habitacionais levou em conta as famílias removidas devido às obras, e que o objetivo era preservar os vínculos.

É importante ressaltar, ainda, que em todos os casos de reassentamento no Taquaril, incluindo os que não são originários de lá, foram realizados trabalhos sociais de pré e pós-morar, por meio da equipe técnica da Urbel, com o intuito de proporcionar aos moradores o estabelecimento de vínculos comunitários”, informou, por nota.

Já a BHTrans afirmou que está prevista, ainda para 2019, a criação de uma linha que ligará o Granja de Freitas ao Taquaril pelo Alto Vera Cruz. “Foi aprovada em reuniões da Comissão Regional de Transporte e Trânsito”, informa nota da empresa.

Beneficiadas

Além das novas unidades habitacionais, milhares de casas foram beneficiadas pelo programa. Obras como drenagem e contenção de encostas foram feitas em mais no entorno de 45 mil residências. Porém, o Vila Viva em Belo Horizonte não tem, até então, indicativo de expansão.

Diretor-presidente da Urbel, Claudius Vinicius Leite afirma que outras intervenções ainda serão entregues, como novos apartamentos no Santa Lúcia e no São Tomás, mas que a verba para esses empreendimentos foi garantida por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) de governos federais anteriores.

De acordo com ele, apesar de não ter recebido um sinal positivo para a continuação do programa em BH, o município tem procurando andar com as próprias pernas, buscando apoios isolados com empresas e bancos mundo afora para propor parcerias e solicitar empréstimos.