“Cada rua de Brumadinho tem pelo menos uma morte. Na minha foram quatro. Não perdi parentes, mas, de certo modo, a cidade é uma grande família despedaçada”. O depoimento da conselheira tutelar Camilla Fernandes, de 40 anos, mostra como a vida dos quase 40 mil moradores do município da Grande BH foi transformada após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão.

Mesmo quem não teve um familiar morto na tragédia ou encontrou a propriedade tomada pela avalanche de rejeitos está abalado com as 134 mortes confirmadas e a destruição de casas, fazendas, vegetação e cursos d’água. São crianças, jovens, adultos e idosos atingidos indiretamente, mas que também tiveram a pacata rotina destruída pelo desastre.

Trabalhando há duas décadas no Cemitério Municipal, no Centro de Brumadinho, o coveiro Atenagos Moreira de Jesus, de 50 anos, perdeu seis amigos na catástrofe. Diariamente, ele ajuda a abrir pelo menos três covas. “Apesar de a cidade não ter sido destruída, o clima é de guerra”.

Para ele, é muito difícil com tal situação. “Eu estava acostumado a ver o Wagner todo dia (amigo de infância). Gente boa, gostava de bater papo à toa na porta de casa, tomar cerveja. É como cavar um buraco sem fim, mesmo que não tenha perdido ninguém da família. Todo dia chegam mais corpos”, afirma Atenagos.

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“Tenho medo de aumentarem os índices de alcoolismo e de suicídio na cidade. Brumadinho era tão pacata. É uma pena” (Flávio Lúcio Ribeiro, autônomo)

“Apesar de a cidade não ter sido destruída, o clima é de guerra” (Atenagos Moreira de Jesus, coveiro)

Temor

Quem também ainda tenta assimilar o que aconteceu é o autônomo Flávio Lúcio Ribeiro, de 42 anos. Sentado na calçada, próximo à casa onde mora no Centro, o homem teme por possíveis consequências do rompimento da barragem. “Temos muitas crianças sem pais, mulheres viúvas. Tenho medo de aumentarem os índices de alcoolismo e de suicídio. Brumadinho era tão pacata. É uma pena, porque nunca mais será a mesma”, garante Flávio Lúcio.

Com uma tristeza similar, a aposentada Maria Zita da Silva, de 64 anos, voluntária da Paróquia São Sebastião, também na região central, foi à missa no último domingo com um nó na garganta. Ela vai ao templo diariamente e conta que a angústia tem sido frequente desde o desastre.

“Minha família está bem, mas ninguém na cidade está normal. Pelo menos duas amigas minhas foram vítimas. O que me conforta é poder conhecer pessoas que posso acolher. Seja com uma oração, uma refeição, uma informação. O que estamos fazendo é estreitar laços com quem perdeu algum familiar. Vamos reconstruir nossa grande família”, diz Maria.

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“O que me conforta é poder conhecer pessoas que posso acolher. Vamos reconstruir nossa grande família” (Maria Zita da Silva, aposentada)

Ajuda

Mesmo em um clima de velório constante pela centena de mortes contabilizadas, os moradores de Brumadinho arrebatam forças para dar apoio a quem foi prejudicado. Após o desabamento da barragem, o bancário Márcio Luiz Fonseca, de 77 anos, começou a acordar às 6h, de segunda à segunda, para amparar os atingidos.

A rotina dele se resume a sair de carro pelas ruas do município e oferecer ajuda nos cemitérios e pontos de apoio para doações. Até hospedagem ele tem disponibilizado. “Coloquei meu sítio para abrigar umas dez pessoas. E ele continua aberto. Meus parentes estão bem, mas perdi tanta gente que era família também, pessoas que passavam na minha casa para tomar um café. É muito triste”.

Há mais de 50 anos

Nascido e criado em Brumadinho, Márcio lembra que a maior tragédia da cidade tinha ocorrido na década de 1960, quando um caminhão capotou com trabalhadores de uma mineradora, deixando oito mortos.

“Pensei que esse acidente, que aconteceu quando eu tinha 7 anos, seria o mais grave da nossa história. Depois da barragem, tudo mudou, minha cabeça não funciona do mesmo jeito mais. Brumadinho tem sido obrigada a se reinventar todo dia”. 

Professora do Departamento de Saúde Mental da UFMG, a psiquiatra Cláudia Fuzikawa explica que, inicialmente, é natural o impacto emocional em pessoas que, indiretamente, estão envolvidas com as vítimas do desastre. “Esse luto é coletivo, principalmente em uma localidade pequena. É como se a proximidade maior gerasse um reflexo mais forte”.

Para a docente, caso não haja acompanhamento psicológico adequado, traumas podem surgir. “São dias seguidos vivendo este luto, acompanhando notícias. Nessas situações, é essencial o acolhimento à população”, reforça.

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“Depois da barragem, tudo mudou. Brumadinho tem sido obrigada a se reinventar todo dia” (Márcio Luiz Fonseca, bancário )

Assistência

Brumadinho conta com o chamado Comitê de Operações Emergenciais em Saúde (COES), da Secretaria Municipal de Saúde, que prevê atendimento psicossocial aos moradores nos pontos de apoio montados na cidade. A Vale informou ter contratado profissionais para prestar essa assistência, mas também existem voluntários dando amparo às pessoas.

Os locais para atendimento funcionam na Estação Conhecimento, no Centro Comunitário Córrego do Feijão, Escola Municipal Carmela Caruso Aluotto, Ginásio Poliesportivo do bairro Progresso e Associação Comunitária do Parque da Cachoeira.

*Colaboraram Malú Damázio e Bruno Inácio