Um entrave com a empresa que venceu a licitação e abandonou o projeto inviabiliza a manutenção dos abrigos de ônibus em Belo Horizonte. O último levantamento feito pela BHTrans apontou que 370 estruturas do modelo antigo demandavam reparos. Porém, apenas 60 serão reformadas até o fim do ano. Sem todas as trocas, muitos usuários do transporte coletivo estão à mercê do sol e da chuva.

Tetos danificados ou mesmo arrancados por vândalos são os principais problemas. Além disso, o número de equipamentos públicos depredados pode ser maior, já que o mapeamento da empresa que gerencia o tráfego da capital foi feito no início de 2018. Estragos ocorridos nos últimos meses não entram na conta.

Em outubro de 2017, o Hoje em Dia já havia mostrado o problema. Agora, a equipe de reportagem percorreu novamente algumas vias da metrópole e constatou que as dificuldades enfrentadas pelos passageiros persiste. Além das falhas na cobertura à base de policarbonato, há exemplos de assentos amassados e quebrados, acúmulo de ferrugem e pichação.

Falhas podem ser vistas em estruturas da avenida dos Andradas, próximo à Câmara Municipal, Leste de BH, e na entrada do aglomerado Alto Vera Cruz, na mesma região. A situação se repete na Via 240, na zona Norte, e nas avenidas Amazonas e Nossa Senhora do Carmo, Centro-Sul da cidade.

Outro abrigo depredado está na Tereza Cristina, no bairro Camargos, Oeste de Belo Horizonte. Lá, o auxiliar administrativo Afonso Spinelli, de 44 anos, convive diariamente com a falta de manutenção em um ponto de ônibus às margens da via. Ele mora em um condomínio nas imediações e utiliza o meio de transporte para ir ao trabalho. “Tem cinco anos que vivo aqui e cada dia está pior. É terrível em dias de chuva”.

Consequências

A Associação dos Usuários de Transporte Coletivo e Alternativo de Belo Horizonte também reclama. Segundo Gislene Reis, vice-presidente da entidade, os problemas se agravam diariamente na capital, com consequências para a população. “A qualidade do serviço não corresponde ao valor cobrado. Os abrigos não nos protegem de nada durante a chuva. Às vezes, embaixo deles a gente se molha mais do que se estivesse na rua”, disse.

Para a presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Rose Guedes, é preciso criatividade para gerir o problema nos abrigos. Ela defende parcerias com a iniciativa privada e com a população para melhorar a qualidade dos equipamentos. “É necessário também investir em segurança e infraestrutura. Se existe uma área com pouca luminosidade, vai transmitir sensação de insegurança e pode acabar sendo alvo de atos de vandalismo. Além disso, o desenvolvimento dos equipamentos públicos tem que ser disseminado em todas as regiões da cidade”, sugeriu Guedes.

O diretor de Sistema Viário da BHTrans, José Carlos Mendanha Ladeira, disse que uma licitação para a manutenção chegou a ser feita. “Mas a empresa que venceu desistiu no ato da assinatura do contrato em 2017. Na época, a gente não conseguiu colocar para o orçamento de 2018”. 

A autarquia realiza reparos paliativos com peças que estavam em depósitos da prefeitura. “Temos um objetivo até 2020 de fazer com que 70% dos pontos de embarque de passageiros sejam realizados em estações ou em pontos cobertos”, informou Ladeira.

Abrigo ônibus bh cobertura danificada
 Um dos pontos de ônibus com a cobertura danificada fica na avenida dos Andradas, na região Leste

Prevenção

Em nota, a Guarda Municipal de Belo Horizonte ressaltou atuar “de forma ininterrupta, em toda a cidade, no sentido de coibir práticas criminosas e de prevenir casos de danos ao patrimônio”. A corporação realiza patrulhamento em viaturas e motos, durante as 24 horas do dia. O trabalho ainda conta com o apoio de câmeras para a identificação de suspeitos. A população pode denunciar atos de vandalismo pelo telefone 153 ou ligando para 190 da Polícia Militar.

Em BH estão instalados 2.611 abrigos de ônibus. Em alguns casos, as estruturas foram erguidas há 15 anos. Uma troca está sendo feita para abrigos mais modernos, com painéis de led apresentando os horários dos coletivos. A mudança começou em julho de 2016 e a previsão da BHTrans é de implantar o novo modelo em 1.300 pontos cobertos da cidade até 2020.

Dentro dessa meta, havia ainda a intenção de alcançar 500 pontos cobertos entre o fim de 2017 e março deste ano. O objetivo, no entanto, foi alcançado apenas em novembro. Vencedora da licitação para realizar as alterações, a Emerge BH foi procurada para comentar sobre o atraso, mas nenhum posicionamento foi emitido.