Sete dias após a instalação do botão do pânico nos ônibus de Belo Horizonte, o dispositivo foi acionado pela primeira vez ontem e ajudou a deter um suspeito de importunação sexual. O homem teria se masturbado ao lado de uma passageira. Entre o grito de socorro da mulher e a chegada da Guarda Municipal, que efetuou a prisão em flagrante, se passaram 15 minutos. A vítima é uma empregada doméstica, casada e mãe.

Criado para atender às usuárias que sofrem com assédios nos coletivos, o sistema envia um alerta instantâneo aos agentes de segurança. Atualmente, os 2.900 veículos da frota da capital contam com a tecnologia, que faz parte de um projeto para barrar os crimes no transporte público. Outra ação implementada foi a distribuição de apitos tanto nos ônibus quanto no metrô.

A mulher que denunciou o suposto delito estava na linha 3051 (Flávio Marques Lisboa/ Savassi) e seguia em direção ao serviço. O rapaz envolvido no caso havia sentado ao lado dela quando teria começado a se masturbar. Assustada, a vítima começou a gritar e a trocadora chamou o motorista. O condutor apertou o botão do pânico e parou o veículo na rua Úrsula Paulina, no bairro Betânia, no Barreiro, até a chegada de uma viatura. 

Atualmente, os 2.900 coletivos da frota de BH têm o dispositivo

O suspeito tem 37 anos e prestou depoimento na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, no Barro Preto, Centro-Sul de BH. Ele foi conduzido ao sistema prisional e está à disposição da Justiça. Segundo a Polícia Civil, será enquadrado por importunação sexual, que prevê pena de 1 a 5 anos de cadeia. À equipe de reportagem, ainda na delegacia, o homem negou as acusações. “Sou casado, tenho dois filhos. Estava apenas com o zíper aberto e fui fechar, mas ela achou que eu estava fazendo outra coisa”, justificou.

Ele já tem passagem pela antiga contravenção penal “importunação ofensiva ao pudor” por ter cometido um ato obsceno, segundo a Polícia Civil. A data e o local do delito, porém, não foram informados.

Um passageiro que estava no ônibus contou que, após a vítima pedir ajuda, o suspeito tentou fugir. “Ele deu sinal como se fosse sair do veículo e estava negando o crime. Então, eu disse que, se não tinha feito nada, que esperasse a polícia chegar”, relatou.

Para a Guarda Municipal, a prisão reforça a importância do botão do assédio. “Se mostrou eficiente, tendo em vista que logo após ser acionado gerou um aviso. Além disso, fica um outro alerta para que as pessoas pensem antes de cometer o crime nos ônibus”, disse o agente Nilson Lamartini da Conceição.

Em crescimento

A ocorrência entrou para uma estatística que não para de crescer em Minas. Conforme o Hoje em Dia mostrou em 23 de outubro, os casos de assédio a mulheres no transporte de passageiros triplicaram no Estado. As queixas em ônibus, metrôs e trens dos transportes coletivo e privado passaram de 15, de janeiro a setembro de 2017, para 48 no mesmo período deste ano.

O homem detido pela Guarda Municipal já tem passagem pela polícia pela antiga contravenção penal “importunação ofensiva ao pudor”

Confira a entrevista que a passageira vítima de importunação sexual concedeu ao Hoje em Dia:

Como a senhora percebeu a ação do suspeito?
Estava indo para o trabalho, no Buritis (Oeste de BH), mexendo no celular. Quando olhei para a poltrona ao lado, percebi que o órgão genital do homem estava para fora da calça, e ele se masturbava. Fiquei muito nervosa, revoltada. Gritei e, graças a Deus, ele não conseguiu fugir.

Que sentimento fica após a ocorrência?
Ainda estou assustada, mas há um alívio porque ele foi preso. Tento entender tudo isso, mas não consigo.

Que conselho daria a outras vítimas de assédio?
É importante denunciar. Do contrário, eles vão continuar. Não podemos deixar essas pessoas na impunidade. É preciso punição.

Fica algum receio em voltar a andar de ônibus?
Estou com medo de ir trabalhar amanhã (hoje), mas não tenho outra opção de transporte. Agora vou prestar ainda mais atenção nas pessoas, evitar de sentar no fundo, ficar mais perto do cobrador.

E o botão do pânico...
Pode reduzir a ação dessas pessoas. No meu caso, foi tudo muito rápido. Logo que pedi socorro o motorista foi avisado e acionou o dispositivo. Em seguida, a viatura chegou.