Seis em cada dez candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas que concorreram a vagas de cotas raciais na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no Triângulo Mineiro, não se enquadram na categoria. A conclusão é da Diretoria de Processos Seletivos (DPS) da instituição. Das 1.093 pessoas chamadas para uma entrevista de comprovação de etnia, só 396 foram aprovadas – 36%.

Os outros estudantes foram reprovados por não comparecerem à etapa ou por declararem, de forma ilegítima, que pertenciam a grupos de minorias sociais, segundo o professor Dennys Garcia Xavier, coordenador da DPS. 

Após uma série de denúncias de fraudes na lei de cotas, a UFU decidiu investigar, pela primeira vez, quem concorreu ao vestibular destinado a estudantes negros, indígenas e pardos. O caso, que lança alerta para outras universidades, foi mostrado na semana passada pelo Hoje em Dia.

“Essas vagas são para pessoas que sofrem ou poderiam sofrer, de fato, preconceito racial. Não basta ser moreno, queimado de sol, ter pais ou avós negros. Não se trata disso. Estamos falando da possibilidade real de sofrer preconceito”, explica Dennys Xavier.

Ociosas

Ao todo, a UFU oferece 507 cotas raciais. Após o resultado das entrevistas, há pelo menos 111 vagas que não serão preenchidas por falta de candidatos.

A universidade irá recrutar pessoas que se inscreveram nas demais modalidades de cotas, reservadas para estudantes de escola pública e de baixa renda.

As tentativas de burlar a lei não ocorrem somente na UFU. Dados da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Ministério dos Direitos Humanos (Seppir) mostram que, em todo país, cerca de 450 fraudes são denunciadas a cada semestre. No entanto, as trapaças só são investigadas após a entrada dos estudantes nas universidades.

Ambos os casos

O diretor acredita que parte dos candidatos não age de má-fé, mas desconhece o público-alvo beneficiado pela legislação. “A lei (de cotas) pretende fazer uma reparação histórica aos grupos marginalizados socialmente. Muitos estudantes têm uma leitura errônea da autoidentificação”, diz.

Ao mesmo tempo, Dennys lembra que há, sim, pessoas que deliberadamente fraudaram o sistema e reforça que a instituição fica satisfeita em barrar esses alunos. “Imagine quantos brancos estariam ocupando uma vaga na universidade de maneira ilegítima se não tivéssemos checado. Não queremos essas pessoas dentro do ambiente acadêmico. Se eles fraudam as cotas, o que não fariam para conquistar seus objetivos?”, questiona.

Mudanças na seleção

Para tornar o processo seletivo mais claro e evidenciar quem tem direito a concorrer às vagas para pretos, pardos e indígenas, o edital do processo seletivo da UFU passará por mudanças.

O documento dirá que a avaliação fenotípica não leva em conta critérios subjetivos e ancestralidade, mas se o estudante apresenta características que efetivamente podem torná-lo vítima de preconceito racial.

A universidade ainda produzirá vídeos institucionais explicando quem faz parte da categoria e fará palestras em escolas das periferias de Uberlândia. A intenção é abrir o diálogo com pessoas que podem entrar por cotas e que, muitas vezes, não chegam ao ensino superior. "Queremos que o aluno negro de periferia, que jamais pensava em ingressar na universidade, acredite nessa possibilidade, ocupe o lugar que é dele. Há vagas sobrando”, diz Dennys.