Acumular a função de motorista e trocador de ônibus pode gerar uma carga excessiva de estresse e até favorecer o surgimento de doenças, como a depressão. Nada menos que 25% dos cerca de 6 mil condutores do transporte coletivo da capital e Grande BH se afastam do trabalho devido a problemas de saúde, mostra estimativa do Sindicato dos Rodoviários de Belo Horizonte e Região (STTRBH).

O número reforça o alerta em torno da polêmica envolvendo a decisão das empresas de transporte público da metrópole de manter o sistema sem cobradores aos domingos e feriados. Na ausência do agente de bordo, cabe a quem está ao volante recolher o dinheiro dos passageiros. O sindicato teme que a conciliação das tarefas contribua para o aumento das licenças médicas. 

“A manipulação do dinheiro com o acúmulo da função de motorista implica, principalmente, no agravamento de problemas emocionais”, alerta José Ferreira, diretor de comunicação do STTRBH. Apesar de admitir os riscos, Ferreira lembrou que a mudança está prevista em uma lei e que o sindicato não teme por demissões.

“Ainda que exista um acordo entre os sindicatos ou leis municipais dispondo sobre o acúmulo de funções, a medida é nula porque contraria acordos internacionais” (Lutiana Nacur Lorentz, procuradora do Trabalho)

cidentes

Não bastassem as baixas no serviço, a medida também pode refletir na segurança. Para o médico Guilherme Durães, da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), a mudança piora a qualidade do serviço prestado e pode aumentar o risco de acidentes no trânsito. “Os condutores estão em constante pressão e, pelo que percebemos, não têm o costume de cuidar da própria saúde. Isso compromete a percepção e reflete na segurança, podendo elevar o índice de atropelamentos e colisões”.

No último domingo, o Hoje em Dia flagrou que um motorista se esqueceu de liberar a catraca após receber o pagamento. O condutor só autorizou a passagem do usuário minutos depois, já com o carro em movimento. 

Alegando inconstitucionalidade, o Ministério Público do Trabalho (MPT) já ajuizou dois inquéritos e uma ação pública em Minas, neste ano, contra o acúmulo de funções de motorista e cobrador. A procuradora Lutiana Nacur Lorentz engrossa o coro de que a medida fere os direitos à saúde e segurança do trabalhador. “Uma convenção coletiva entre o sindicato e os profissionais não pode se sobrepor à Constituição, que assegura direitos e proíbe o acúmulo de funções”. Ela não descarta entrar com novas ações contra a prática na capital.

Cultural

Para que a medida funcione, especialistas em trânsito afirmam que é preciso mudar a estrutura do transporte urbano na capital. A falta do cobrador exige que o sistema de bilhetagem seja totalmente automatizado. Assim, o condutor não precisará se preocupar com o troco, o que já acontece em países da Europa e nos Estados Unidos. “Se ele tiver que dirigir e cobrar a passagem, a situação se complica. Quem conduz veículos pesados não tem condição de ficar de olho no trânsito e no dinheiro”, avalia David Duarte, doutor em segurança no trânsito.