Futebol, trabalho, família, relacionamento, piada, dinheiro... Temas não faltam no bate-papo da mesa do bar. Alguns, é verdade, tomados de discursos recheados de ódio, principalmente quando o assunto é a política brasileira. Mas, na maioria das vezes, a turma do sereno se diverte com uma boa prosa sem pressa nem hora para acabar.

Bebendo nesta fonte e de olho na fama de boêmios dos belo-horizontinos, um festival internacional de divulgação científica desembarca na capital dos botecos. Durante três noites, a partir do próximo dia 23, pesquisadores vão sair dos laboratórios rumo aos estabelecimentos comerciais. 

O foco deles passa longe de jogar conversa fora com a clientela. Entre um gole e outro, riso farto e cerveja gelada, os cientistas pretendem apresentar variados projetos ao público e o impacto dos experimentos no dia a dia. Para tanto, eles prometem um papo rápido, informal e descontraído.

Evento

Idealizado há três anos, na Inglaterra, o Pint of Science (dose de ciência, na tradução livre) acontece neste ano em 11 países. No Brasil, são sete cidades, incluindo BH, que recebe o festival pela primeira vez.

No roteiro etílico da metrópole mineira estão 18 pesquisadores e três bares da região Centro-Sul. O evento integra a programação dos 30 anos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e conta com parceria da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes). 

Cientistas em botecos de Belo Horizonte
EM GRUPO – Dinâmicas serão feitas com os clientes, garante o pesquisador Jonas Jardim

Prévia

A pedido do Hoje em Dia, quatro pesquisadores deram uma prévia do que vem por aí. Eles foram até os estabelecimentos conversar com os fregueses. No primeiro contato, uma certeza: despertar a atenção será um desafio.

“É preciso preparar bem os conteúdos e adaptá-los. Buscar algo para interagir é fundamental”, diz o pesquisador Jonas Jardim de Paula. Ao lado do colega Maicon Albuquerque, ele preparou uma dinâmica com perguntas e respostas, que serão feitas em um guardanapo.

Na palestra de Jonas, o tema “Cérebro em pauta: as doenças da modernidade”. Ele pretende discutir alguns males, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Vídeos também serão usados durante os encontros.

Iniciativa aprovada

Na mesa, no balcão ou até mesmo nos corredores. Todos os ambientes dos bares serão tomados por diversos temas como dengue, zika, chikungunya, sustentabilidade, transgênicos, nanotecnologia, startups. Tecnologias focadas em diversas áreas serão apresentadas ao público.

Pesquisadores do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), Ramon da Cunha Lopes e Tales Argolo vão falar sobre “o futuro dos robôs”. Pequenas máquinas serão levadas à plateia. “A ideia é mostrar que a solução de muitos problemas extrapola a condição humana”, antecipa Ramon Lopes.

Com mais de 30 anos de atuação só na UFMG, a professora Tânia Margarida Costa vai falar sobre “os novos modelos de ensino”. Ela brinca e promete informação na ponta da língua e um copo de uísque na mão. “A sala de aula atual não pode ser a mesma de anos atrás. Tecnologia para mudar isso existe. São vários recursos disponíveis. Vamos conversar um pouco sobre isso”, antecipa ela, que é coordenadora da Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG.

Educação também é tema a ser explorado por Cláudia França. Ela planeja uma conversa informal, contando um pouco sobre a rotina e o trabalho dos profissionais.

A clientela da capital aprovou o inusitado projeto. A publicitária Etiene Martins, de 32 anos, estava na Cantina do Lucas, no Centro, e, ao lado de vários amigos, participou de uma das rodas com pesquisadores. “É uma forma de aproximar um assunto, às vezes distante da maioria das pessoas, para o nosso cotidiano”, afirma Etiene. 

Nos estabelecimentos, a mesma aprovação. Gerente de marketing do Itatiaia Rádio Bar, Fernanda Reis diz que a ideia foi “abraçada” pelo grupo. “Traz conteúdos interessantes e específicos para o público. Tem cliente que quer saber sobre pesquisas contra a dengue, por exemplo”. 

A proposta, acrescenta Fernanda, tem tudo para dar certo. “O próprio ambiente, que já é descontraído, facilita que esse encontro não seja chato”.

Em outros países

Além de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas (SP), Dourados (MS), Ribeirão Preto (SP) e São Carlos (SP) recebem a iniciativa, que acontece simultaneamente nos outros dez países participantes. Para o presidente da Fapemig, Evaldo Vilela, a aproximação entre o público e a ciência no país ainda enfrenta “muitas lacunas”. A iniciativa do “Pint of Science” surge como uma oportunidade de levar os pesquisadores para um ambiente de apelo mais popular. “É importante mostrar para as pessoas que é possível conversar sobre ciência em qualquer lugar, assim como falamos de futebol”, afirma Evaldo Vilela.

Cientistas se reúnem em botecos de Belo Horizonte
NA CANTINA DO LUCAS – Materiais feitos em impressoras 3D serão apresentados pela professora Cláudia França