Dentre as 106 espécies de aves ameaçadas pela destruição das áreas verdes em Minas, as que habitam topos de montanha encontram nas mudanças climáticas mais um inimigo mortal. Isolados nesses habitats, os pássaros ficam vulneráveis a fatores como aquecimento global e, sobretudo, aos impactos da mineração e agronegócio.

A constatação é do casal de biólogos Guilherme Freitas e Lílian Costa, que estudam a avifauna dos topos da Serra do Espinhaço, divisor natural das bacias dos rios São Francisco, Doce e Jequitinhonha. Entre as nove espécies que mais sofrem com as mudanças climáticas, quatro são as mais ameaçadas: o lenheiro-da-serra-do-cipó, o pedreiro-da-serra-do-espinhaço, a garrincha-chorona e o beija-flor-de-gravata-verde.

Como habitam apenas elevadíssimas altitudes, se a temperatura subir, essas aves não conseguem encontrar clima mais ameno, uma vez que já estão no topo, explica Freitas. “Elas estão seriamente impactadas, restritas a ilhas de ambientes com clima e vegetação diferenciados, com tipos específicos de plantas e de animais, pois as mineradoras avançam para as montanhas do Espinhaço”, alerta o biólogo.

Na Serra do Breu, região Central do Estado, o pedreiro-do-espinhaço (Cinclodes espinhacensis) é monitorado com anilhas coloridas e rádio transmissores. O pássaro se alimenta, por exemplo, de larvas aquáticas. Foi descoberto em 2008 e descrito em 2012 pela equipe do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, que envolve os laboratórios de Ornitologia e de Biodiversidade e Evolução Molecular, coordenados pelos professores Marcos Rodrigues e Fabrício Santos.

Em perigo

Endêmico dos topos da Serra do Cipó, também na região Central, o pássaro foi incluído na lista de espécies ameaçadas no Brasil na categoria em perigo, assinala Lílian, que participou do processo de descoberta da espécie.

O pedreiro tem similaridade com outra espécie isolada na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de um grupo de espécies restritas aos Andes e Patagônia, como explica Freitas, doutor em zoologia e um dos descobridores do pedreiro em Minas.

No Alto da Boa Vista e no Alto do Palácio, o lenheiro-do-cipó também ganhou anilhas durante estudos sobre a espécie, descoberta em 1990, na Serra do Cipó.

O pássaro “está em situação crítica e deve voltar para a categoria ameaçada”, prevê Lílian, que estudou a espécie no doutorado em ecologia, conservação e manejo da vida silvestre.

O lenheiro sofre o impacto do chopim, ou vira-bosta, pássaro põe seus ovos apenas em ninhos de outras espécies e prolifera com a presença da criação de gado na Serra do Cipó.

“O número de fêmeas do lenheiro tem diminuído e os machos monitorados há mais de seis anos nunca encontraram uma para parear”, diz a pesquisadora.
 

Arte

Previsão de declínio populacional de espécies raras

Na Serra do Espinhaço, de Minas à Bahia, o beija-flor-da-gravata-verde e o beija-flor-da-gravata-vermelha se destacam entre as aves que vivem nos campos rupestres, associadas às regiões frias e que mostram conexões biogeográficas com outras montanhas da América do Sul.

Acima de 2 mil metros de altitude também vive a garrincha-chorona. Com populações em declínio, habita campos de altitude da Serra da Mantiqueira (Sul de Minas) e nos campos rupestres da Serra do Caraça, além da Serra do Mar. Nas montanhas do Sudeste encontra-se o rabo-mole-da-serra e o papa-mosca-das-costas-cinzentas. Para este último está previsto um grande declínio populacional nos próximos anos, por conta das mudanças climáticas.

Mata Atlântica

A Mata Atlântica é o bioma com o maior número de espécies ameaçadas. “A fragmentação das florestas provoca a diminuição da oferta de alimentos, abrigos, sítios reprodutivos, alterações nas condições ambientais, como temperatura e umidade. Enfim, alterações em pontos vitais para a manutenção dos estoques populacionais, especialmente de espécies mais sensíveis”, explica a bióloga Gláucia Drummond, presidente da Fundação Biodiversitas.
Com o apoio da American Bird Conservancy (ABC), a Biodiversitas ampliou para 950 hectares, neste ano, a Reserva Mata do Passarinho, no Vale do Jequitinhonha, que abrange os municípios de Bandeira e Jordânia e Macarani (BA). Considerada “um baú de biodiversidade”, a reserva, criada em 2007, protege 330 espécies de aves, das quais 46 ameaçadas de extinção.

 

Na reserva vive o entufado-baiano (Merulaxis stressemani), extremamente ameaçado de extinção. Estima-se que haja apenas 15 indivíduos na natureza, o que torna sua situação de conservação muito delicada.