A paralisação de caminhoneiros iniciada na madrugada desta segunda (9) em cinco trechos de rodovias mineiras e pelo menos dez Estados brasileiros ainda não mostrou impactos na produção e no abastecimento, mas acendeu o alerta diante de um movimento de caráter político, que pode ganhar força ao longo da semana e acarretar perdas, caso não haja acordo. Dentre as reivindicações dos motoristas que aderiram ao movimento, estão a redução do preço do óleo diesel, a criação de preços tabelados para os fretes e a saída da presidente Dilma Rousseff.

Nesta segunda, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que os caminhoneiros que interditarem as estradas serão multados em R$ 1.915,00. A polícia também foi orientada a desobstruir as estradas e garantir a segurança dos caminhoneiros que quiserem trabalhar.

Para o cientista político e professor do Ibmec Oswaldo Dehon, as greves de caminhoneiros são instrumentos comuns também em outros países, mas sempre no intuito de melhorar questões ligadas à atividade do transporte.

“É um tipo de protesto político, diferente do que observamos no cenário internacional e também do que vinha acontecendo no Brasil. Mas acredito que seja um momento específico da conjuntura do país e não deve se tornar algo comum”, avalia.

Um dos líderes da categoria e organizador da paralisação que ocorre por prazo indeterminado, Ivar Schmidt afirma que a luta é pela renúncia da presidente Dilma Rousseff. Ele está à frente do “Comando Nacional do Transporte” e garante que os caminhoneiros, agora, somente vão negociar “com o próximo governante”. Ivar mora em Mossoró (RN) e nega qualquer vínculo partidário. Entidades representativas das empresas de carga e dos próprios caminhoneiros autônomos não declararam apoio ao ato encabeçado pelo Comando Nacional do Transporte – o movimento é independente e fomenta o ato por meio de redes sociais.

Em Minas, o presidente da Federação das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais (Fetcemg), Vander Francisco Costa, reprova a forma adotada para realização do protesto e afirma que, dessa maneira, não há possibilidades de negociação com o governo.

“Não há lideranças. O que estamos observando são apenas discussões nas redes sociais. O Comando Nacional do Transporte é uma criação sem CNPJ. É um movimento que vai trazer muito transtorno, mas pouco resultado positivo. Muitos motoristas estão parados mais por medo de sofrerem retaliação do que por apoio ao movimento”, afirma.

O Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas de Minas Gerais (Sinditac) também se posicionou contrário à paralisação. Por meio de nota, o presidente da entidade, Antônio Reis, afirmou que o grupo “não está participando desta greve que tem cunho exclusivamente político”. Ele afirma que não houve discussão de pauta entre os caminhoneiros e nem consenso da maioria.

O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga do Estado de Minas Gerais (Setcemg) também se opôs à manifestação destacando falta de clareza na organização do movimento.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) não informou quantos motoristas participam da paralisação em Minas. O Estado possui seis pontos de paralisação, perdendo apenas para o Rio Grande do Sul, que tem 14 e o Paraná, que tem oito.

Desabastecimento pode encarecer insumos se greve persistir

A perda de produtos perecíveis é o maior temor de empresas ligadas ao setor de alimentos. Com o risco de os caminhões permanecerem mais tempo na estrada devido ao fechamento das vias, varejistas podem reduzir o volume de compras de itens como os hortifrutigranjeiros.

De acordo com o chefe do Departamento Técnico da CeasaMinas, Wilson Guide, uma possível escassez de fornecimento pode acarretar até mesmo aumento de preço, caso a paralisação dos caminhoneiros ganhe força nos próximos dias.

Guide explica que produtos cultivados em regiões vizinhas à Belo Horizonte representam menos riscos. Porém, produtos como batata e tomate, que são cultivados em locais mais distantes, estão mais suscetíveis aos prejuízos de uma demora no transporte.

“Ainda é cedo para medirmos impactos reais, mas compradores já estão com receio de ficarem parados nas estradas e, por isso, tendem a comprar menos. A própria questão psicológica pode influenciar na formação de preços. Algo que certamente será repassado para o consumidor. No entanto, tudo vai depender de quanto tempo vai durar a greve e qual será sua efetividade no Estado”, avalia.

Para o economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Sérgio Guerra, o atraso da chegada de insumos à indústria também é um risco real.

“A indústria tem os custos aumentados e a dinâmica da produção é afetada à medida em que matérias -primas não chegam no momento esperado. Mas ainda é cedo para fazemos avaliações certeiras”, afirmou.

Combustíveis

Paralisação dos petroleiros afeta onze refinarias

No oitavo dia de greve dos petroleiros, a adesão em Minas Gerais ultrapassa os 90% nos setores operacionais, de acordo com o Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais (Sindpetro). A Petrobras, no entanto, não confirma o percentual.

A adesão se refere aos funcionários da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, da termelétrica Aureliano Chaves, em Ibirité, ambos na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), e da Usina de Biodiesel, em Montes Claros. A produção não foi paralisada, já que a empresa mantém equipes em esquema especial.

No Brasil, a greve já afeta 11 refinarias e 58 plataformas e unidades de serviços em todo o país, segundo balanço da Federação Única dos Petroleiros (FUP), divulgado nesta segunda.

A entidade, que coordena 13 sindicatos no país, avalia que a produção foi reduzida em 400 mil barris de petróleo por dia somente na Bacia de Campos, mas estima impactos também nos campos terrestres na Bahia, onde a metade da produção estaria comprometida.

Representantes da federação se reuniram na manhã de ontem com a Petrobras, mas decidiram continuar o movimento.

Segundo a FUP, a mobilização afeta a produção em 49 unidades marítimas da Bacia de Campos, seis plataformas no Ceará, três unidades no Espírito Santo, além dos campos terrestres da Bahia, Rio Grande do Norte e Espírito Santo.

Dentre as refinarias, estão sem troca de turno desde o início do movimento 11 unidades, incluindo a Reduc (Duque de Caxias, RJ) e a Replan (Paulínia, SP), as principais. O Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo no Estado de Minas Gerais (Minaspetro) informou que, por enquanto, não há risco de desabastecimento no Estado. Os petroleiros são contra a redução dos investimentos e a venda de patrimônio da empresa.

(Com agências Folhapress e Estado e Bruno Moreno)