As obras de captação de água do rio Paraopeba são consideradas a salvação para o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que corria risco de sobretaxa na tarifa e racionamento até o fim do ano. Mas, para quem vive às margens do curso d’água, a solução para a escassez hídrica parece estar muito longe.

Em Brumadinho, onde será feita a transposição do rio, vários bairros sofrem com as torneiras secas durante o dia, inclusive aos sábados e domingos. “Quando fiquei sabendo que a Copasa garantiu que não faltará água na capital, fiquei brava demais. Eles vão levar água daqui para lá, mas nós vamos ficar no racionamento”, protesta a auxiliar de escritório Maria Rita, de 56 anos, se referindo ao anúncio feito segunda-feira pela companhia.

Ela mora em Conceição de Itaguá, distrito de Brumadinho, um dos locais mais afetados pelo problema. A auxiliar administrativa Kelly Regina Pereira da Silva, de 32, afirma que é raro ter água em casa. Segundo ela, a situação vem se agravando.

“Geralmente, desligam de manhã e ligam à noite. Tenho que levantar de madrugada para lavar roupas e reservar água em galões para usar durante o dia”, lamenta Kelly, que mora há nove anos em Conceição de Itaguá. De acordo com ela, quem vive há mais tempo no local garante que o abastecimento era regular, mas está piorando. “Eu evito ficar falando isso, mas não concordo em levarem água daqui para BH”, diz a auxiliar administrativa.

Atraso

O secretário de Meio Ambiente de Brumadinho, Hernane Abdon, considera procedente a indignação da população da cidade em relação às medidas adotadas pela Copasa para garantir o fornecimento de água em outras localidades.

“Em 2008, quando a empresa renovou o contrato de concessão da captação de água para Belo Horizonte, ela assumiu o compromisso de garantir 100% de abastecimento para nossa cidade e de oferecer saneamento básico. Mas, até hoje, nada foi feito. Parte do esgoto é descartada in natura nos nossos mananciais”, afirma.

No ano passado, segundo Abdon, a Secretaria de Meio Ambiente multou a companhia em aproximadamente R$ 2,5 milhões pelo descumprimento na adoção de medidas sanitárias. “A situação é absurda, porque somos a caixa d’água da Grande BH. Não somos clientes, somos produtores de água da Copasa”, ressalta.

Sem resposta

A Copasa foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou sobre o assunto. Nesta quarta-feira (12), está prevista uma visita do governador Fernando Pimentel ao canteiro de obras no rio Paraopeba, em Brumadinho.

Às margens do rio Paraobepa, escassez hídrica é real
A obra permitirá a captação de água do Paraobepa para abastecer outros municípios da Grande BH

Sem tratamento de esgoto, bacia sofre assoreamento

Atualmente, a bacia do rio Paraopeba recebe 92% do descarte de esgoto de Brumadinho, segundo o presidente do Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (Cibapar) e vice-prefeito do município, Breno Carone. Desse percentual, 38% são despejados pela própria Copasa.

“Eu até concordo em tirar água daqui e levar para Belo Horizonte, porque trata-se de um bem comum, é correto abastecer a região metropolitana. Mas os municípios da bacia também não podem ficar sem. Brumadinho e Rio Manso deveriam ser exemplos de saneamento e água tratada para o Brasil, porque o maior sistema de abastecimento da Grande BH está aqui”, destaca Carone.

Segundo ele, no dia 21 haverá audiência pública na cidade sobre o tema. A captação de água do Paraopeba para abastecer o sistema Rio Manso não deverá ser questionada, já que a proposta é que a intervenção ocorra apenas em períodos de chuva, quando o rio estiver cheio.

“Vamos começar a fazer mobilizações para pressionar a Copasa a cumprir o que está previsto em contrato. Se ela já tivesse feito isso, teríamos água tratada. Hoje, em vários distritos e povoados, o questionamento é se a água está toda aqui, por que nós não temos acesso a ela? Vamos lutar para que a companhia pense no município como um todo”, diz Carone.

A Copasa cumpriu menos de 10% do que prometeu, segundo o presidente do Cibapar.

“Ficamos sem água sempre. Quando ela chega, não tem força para ir até a caixa” Vítor Pinto dos Santos, morador de conceição de itaguá

“A Copasa está pegando nossa água toda. Nem rio temos mais, ele é puro esgoto” Maria Rita, moradora do distrito de brumadinho