Implementar uma política de redução de desigualdades e direcionar os investimentos na reordenação do espaço é, na avaliação de urbanistas, o ponto de partida para que o belo-horizontino alcance o desenvolvimento pleno e a desejada qualidade de vida. 
 
Na avaliação de Sérgio Myssior, arquiteto e urbanista membro do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-MG), a participação popular é fundamental nos processos de planejamento e gestão de uma cidade. 
 
“BH precisa repensar o modelo de desenvolvimento, investir em políticas de reordenamento do território e de redução das desigualdades. Um bom começo é fomentar a participação da população, afinal, as ruas já deram o recado em 2013, tornando o espaço público palco das mudanças da cidade”, diz. 
 
Segundo ele, melhorar a qualidade de vida da cidade não se resume a incrementar os investimentos em sistemas de transporte, construir ou alargar vias. Para Myssior, é necessário promover o desenvolvimento sistêmico da cidade e expandir as possibilidades a todos os moradores. 
 
VEM PRA RUA
 
Opinião semelhante tem a arquiteta e urbanista do Grupo de Empresas Mineiras de Arquitetura (Gemarq) Mariluce Duque. Para ela, mais do que equalizar a questão do trânsito, estabelecendo relação entre os meios de transporte (metrô, ônibus e veículos particulares), é preciso que os moradores se apropriem do espaço público.
 
“Cidades que estão dando certo nesse sentido tendem a se desenvolver mais. Segregar o rico do pobre não funciona. A prefeitura não tem o hábito de envolver as pessoas. Se não temos transporte coletivo, que dirá um pensamento coletivo”.
 
COMPARATIVO DOMÉSTICO
 
Nacionalmente, Belo Horizonte é considerada a primeira capital do Brasil e segunda melhor cidade do país para se viver, segundo pesquisa da empresa de consultoria Delta Economics & Finance, especializada em estudos econômicos e financeiros. Foram analisadas dez variáveis relacionadas à qualidade de vida, infraestrutura e governança das grandes cidades brasileiras.
 
 
Falta profissionalizar culinária e ampliar voos internacionais
 
Tida como carro-chefe para alavancar o nome da capital mineira no cenário internacional, a gastronomia ainda tem muito a se desenvolver: falta profissionalização.
 
“Ainda é impossível concorrer de igual para igual com cidades do exterior. Temos um potencial enorme, disponibilidade e uma variedade incrível, mas um movimento que precisa se profissionalizar. França e Espanha, por exemplo, são países com cultura de séculos e séculos, referências na gastronomia do mundo. Precisamos de tempo e de amadurecimento”, avalia o chef Felipe Rameh, dos restaurantes Alma Chef e Trindade, ambos em BH.
 
O preço médio de um prato a la carte em um restaurante da capital é R$ 69,10, valor semelhante aos da culinária alemã, servida em Hamburgo, e espanhola, em Barcelona, com almoços que custam cerca de R$ 61,20.
 
AINDA TÍMIDO
 
À sombra das vizinhas Rio de Janeiro e São Paulo, BH também mostra-se deficiente quando o assunto é a quantidade de voos internacionais ofertados a moradores e turistas. 
 
Diante de potências espanholas como Madri (16º) e Barcelona (24º), a diferença é gritante. De BH, partem diariamente quatro voos para o exterior; só um deles vai para fora da América (Lisboa). Em contrapartida, das cidades da Espanha são nada menos que 161 e 24 voos internacionais, respectivamente. 
 
“Belo Horizonte carece de uma série de equipamentos urbanos para motivar o turismo de negócios. Ampliar as rotas diretas é importantíssimo”, avalia o presidente do Conselho de Assuntos Metropolitanos e Municipais da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Frederico Aburachid. 
 
 
ENTREVISTA - Regis Souto, secretário de Comunicação da PBH
 
A cidade está num processo de internacionalização acelerado. Como você avalia BH no cenário internacional, principalmente diante das metrópoles citadas na pesquisa inglesa?
Gostaria de situar a cidade em termos nacionais. No ano passado, a revista Exame divulgou o mais completo ranking feito até hoje com cidades brasileiras, e BH foi a segunda melhor cidade. Outro fator interessante foi a pesquisa da Fecomércio, recentemente divulgada, que mostrou um índice de satisfação do turista nacional e estrangeiro de 99,2%. São dois fatores caseiros importantes.
 
A revista considerou aspectos como quantidade de ciclovias, de bibliotecas públicas e rotas internacionais. Sobre as vias para bikes, você não acha que BH começou a discutir o assunto tardiamente?
A gente sempre enfrentou uma lenda urbana muito forte de que BH tem muito morro e não tem jeito de usar bicicleta. Estamos num processo de evolução. O grande problema é convencer as pessoas de que ciclovia é útil, de que isso é um processo permanente e irreversível. Aos poucos, vamos mostrando aos moradores que é possível fazer ciclovias e não haver prejuízos.
 
E sobre as bibliotecas públicas? Diante das cidades ranqueadas, BH está muito aquém...
Viena, por exemplo, tem 39 bibliotecas. Para se ter uma noção, as escolas de Belo Horizonte têm bibliotecas e 40 delas são abertas ao público. Esse é um dado relevante. Na semana passada, recebemos um prêmio nacional pela nossa política de leitura. 
 
Mas as bibliotecas de escolas municipais oferecem nível de leitura para todos os públicos, para um estudante de doutorado, por exemplo?
Existem vários níveis de biblioteca. O que quero passar é que, hoje, se a pessoa quiser fazer uma boa leitura, se quiser ter um momento de descontração e lazer, a biblioteca está aberta, inclusive aos fins de semana.
 
Não é muito pouco para uma cidade conhecida pelo turismo de negócios, que deseja reconhecimento internacional, ter só quatro itinerários para o exterior?
Temos certeza de que quando o aeroporto for concluído vamos evoluir de forma mais acelerada nesse aspecto. São poucas rotas porque BH começou um processo de internacionalização há pouco tempo. No exterior, quando as pessoas descobrem que você é do Brasil, perguntam sé de São Paulo ou do Rio. São as referências que elas têm. Quando fala “BH”, a pessoa pensa um pouco antes de dizer onde fica. Mas temos próximo daqui lugares com rotas para o mundo inteiro, como São Paulo e Rio. Você não está distante do mundo.
 
Não está na hora de BH deixar de viver à sombra de Rio e São Paulo? Se a cidade quer ser reconhecida internacionalmente, não precisaria ter uma estrutura própria. O que falta para que a gente não precise mais explicar “o que é Belo Horizonte”?
É um conjunto de fatores. Em termos de políticas públicas, BH é uma cidade que já tem reconhecimento internacional muito grande. Temos diversos prêmios na área da saúde, da política social, de educação; áreas em que já temos um protagonismo grande. 
 
Mas prêmios não bastam, mesmo porque são os próprios belo-horizontinos que apontam as falhas da cidade e o que ainda se deve melhorar...
Um setor que hoje é reconhecido pela própria sociedade belo-horizontina é a cultura, a grande commodity de BH. Isso envolve a arquitetura do Niemeyer, a gastronomia, a qualidade da nossa música, da nossa dança, do teatro, os festivais que atraem gente do mundo inteiro. A cultura é o grande carro-chefe para inserir BH no mercado do turismo.
 
Então, na sua opinião, BH está no caminho certo ser uma cidade-exemplo aos olhos dos estrangeiros?
Está no caminho absolutamente certo. Estamos num processo de internacionalização acelerado, que não acontece da noite para o dia, mas que vem ocorrendo numa velocidade surpreendente.