SÃO PAULO – A indústria do aço revisou para baixo a previsão de desempenho de seus principais indicadores, elevou o tom das cobranças ao governo federal e confirmou as perspectivas de encerrar o ano com um contingente de pessoal empregado 12% menor que o de 2014. Até abril, o parque siderúrgico nacional apostava que a produção neste ano seria 6,5% superior à de 2014, mas anunciou na segunda-feira a revisão para uma retração de 3,4%, equivalente a 32,7 milhões de toneladas. As vendas internas serão de 18,3 milhões de toneladas de aço e correspondem à redução de 15,6% sobre o ano passado.

A ociosidade média do setor hoje é de 30%, e esse é o dado mais preocupante, que acarreta corte na força de trabalho. Nos últimos 12 meses, as siderúrgicas do país demitiram 11.188 trabalhadores e colocaram 1.397 pessoas em lay off (suspensão temporária do contrato). A projetada deterioração do cenário atual da economia deve promover mais 3.955 desligamentos na indústria do aço.

Os dados são do Instituto Brasileiro do Aço (IABr) e foram apresentados na segunda-feira durante o 26º Congresso Brasileiro do Aço, em São Paulo. De janeiro a junho deste ano a produção ficou 2% maior que a de 2014 e as vendas internas 12,9% menores. A queda projetada se deve à redução da atividade industrial nos principais clientes, como o setor automotivo e a construção civil.

Importações

O presidente-executivo do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, cobrou do governo atitude mais ativa em defesa comercial, sobretudo para barrar a entrada de aço chinês. “São importações desleais, predatórias e sem a observância das normas da OMC (Organização Mundial do Comércio). Não vamos ser autistas de não reconhecer que a China é um importante parceiro comercial do país, mas temos que ter mecanismos de defesa”, disse.

Medidas antidumping

Estão em vigência no país 8 medidas antidumping contra o aço chinês. Os Estados Unidos é o país com maior número dessas medidas (14), seguido do Canadá (10). Entidades representativas da indústria do aço em todo o mundo, inclusive o IABr, se uniram para pedir o não reconhecimento da China como economia de mercado a partir de 2016. No Brasil isso está fora de cogitação. O país asiático é o principal parceiro econômico e em grande parte responsável pelo superávit da balança comercial brasileira.

Deterioração

Embora gere divisas ao país, essa relação bilateral causa a deterioração da pauta de exportação nacional. O Brasil exporta à Ásia matérias primas de pouco valor agregado como minério de ferro e celulose, e importa de lá produtos acabados, como aço e papel.

O aço chinês no mercado nacional atingiu em 2014 o volume de 2,1 milhões de toneladas, sendo que no ano 2000 era de 21 mil toneladas. O IABr projeta que mantido o ritmo de importação atual, em 2024 o produto oriundo da China será 46% do mercado nacional.

Vale cortará 17 milhões de toneladas de produção em Minas

O diretor-executivo de ferrosos da Vale, Peter Poppinga, disse, em São Paulo, que a mineradora iniciará “agora” o corte em sua oferta de minério de ferro de 25 milhões de toneladas previsto para ocorrer até o final do ano. Desse volume, 17 milhões serão nos sistemas Sul e Sudeste, ambos em Minas Gerais. O restante será reduzido com menor compra de terceiros. Ele disse que os cortes na mão de obra já foram realizados e não prevê ajustes acima do turn over (rotatividade de funcionários).

Ele afirmou que a medida não implica necessariamente no fechamento de minas, mas sim de algumas usinas de beneficiamento. “A estratégia não é volume a qualquer preço, mas otimizar margens”, afirmou Poppinga. O preço do minério está cotado atualmente ao redor de US$ 50 por tonelada, e estava a US$ 112 em janeiro do ano passado. Mesmo caso haja reação na cotação, Poppinga assegurou que essa oferta está retirada do mercado de forma definitiva. O executivo disse que as usinas de beneficiamento de minério de baixo teor que estão previstas para iniciar operação neste ano, como é o caso da que está em fase de conclusão em Itabira, vão operar e estão dentro da estratégia de enobrecimento dos produtos ofertados. Atualmente, a Vale possui 4 projetos de beneficiamento de minérios de baixo teor em Minas: Conceição Itabiritos I e II, Cauê Itabiritos e Vargem Grande Itabiritos. Cada um teve custo a partir de R$ 1,1 bilhão.

(O repórter viajou a convite do IABr)

A saída para a siderurgia nacional -está nas exportações, que devem crescer 20% este ano

4 milhões de toneladas devem atingir as importações do setor neste ano, o que representa uma alta de 0,8%