O fator hereditário e a ocorrência de mutações genéticas podem embasar a decisão da mulher de retirar precocemente mamas e ovários, numa tentativa radical de prevenir o câncer. Nesta terça-feira (24), a atriz norte-americana Angelina Jolie, de 39 anos, revelou em artigo no jornal “The New York Times” a retirada dos ovários, justamente por esse motivo. Procedimento cirúrgico que acontece dois anos após ela se submeter a uma dupla mastectomia.

A intervenção somente pode ser adotada quando a paciente apresenta alterações nos genes BRCA1 e BRCA2, problema que eleva em até 85% a chance de diagnóstico de tumor, tanto na mama quanto no ovário, segundo o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia e oncologista da Oncomed, Amândio Soares.

Esse tipo de anomalia pode ser identificado a partir do mapeamento genético. Com a confirmação da alteração, a cirurgia passa a ser indicada a partir dos 35 anos. A causa hereditária também pode justificar a decisão pela cirurgia preventiva. Múltiplos casos da doença na família são um sinal de alerta para a paciente, como a ocorrência em irmãs muito jovens, mãe e até avós.

O procedimento é indicado apenas a mulheres que já tenham filhos. “É uma intervenção agressiva e delicada, mas deve ser considerada para quem se enquadra nesse perfil. Mexe com o psicológico, que é abalado com a mutilação. Além disso, no caso do ovário, resulta na infertilidade, menopausa, além da diminuição da libido”, afirma Soares.

Prevenção

A atriz Angelina Jolie disse na publicação que a probabilidade de 50% de a doença se desenvolver no ovário foi comprovada por meio do mapeamento genético. A herança familiar também foi determinante: mãe e avó materna morreram de câncer de ovário. “Quero que outras mulheres em risco saibam a respeito das opções”, escreveu Angelina.

Recorrência

A herança genética pode ter determinado o desenvolvimento de um câncer de ovário na médica Iliana Marina de Albuquerque Silva, de 68 anos. Ela perdeu uma tia e três primas em decorrência da mesma doença.

Por causa desse histórico familiar, Iliana realizava exames preventivos anualmente. No ano passado, decidiu fazer o mapeamento genético para verificar a presença de alguma anomalia nos genes.

Porém, antes de realizar o exame, recebeu o diagnóstico da doença. “Se tivesse detectado o gene defeituoso, teria retirado o ovário. Toda a forma de prevenção é válida”, observa.

A médica orientou a filha e outros parentes a realizar o exame preventivo. “Minha filha é nova, ainda não tem filhos e precisa se precaver”.