Uma terapia ainda pouco conhecida é alternativa para pacientes com problemas renais crônicos que precisam de hemodiálise, método em que o paciente tem que ir ao hospital três vezes por semana, onde o sangue é filtrado em uma máquina, procedimento que dura cerca de quatro horas.

A Diálise Peritoneal elimina as agulhadas e as horas gastas em uma unidade hospitalar, o que garante ao paciente mais qualidade de vida. De acordo com o diretor do Núcleo de Nefrologia de Belo Horizonte e membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia, José Augusto Meneses, esse tratamento é feito por meio de um catéter inserido no abdômem do paciente.

No tubo é colocada a solução de diálise e o peritôneo - membrana interna do abdômem - retira as toxinas, que são drenadas algumas horas depois. Em seguida a solução é substituída.

Há dois meios mais comuns: a Diálise Peritoneal Manual e a Automática. Na primeira, o paciente tem que trocar o líquido drenado e substituir por um novo. Na automática, ele apenas liga a máquina que realiza todo o procedimento sozinha enquanto ele dorme, em cerca de oito horas.

“A máquina é um pequeno computador que fica ao lado da cama. O paciente não sente dor e após as oito horas pode ter uma vida normal”, explicou Meneses.

O método passou a ser ofertado pelo Sistema Único de Saúde (Sus) há cerca de três anos. Com isso, pacientes atendidos pela rede podem ter acesso ao tratamento de forma gratuita, incluindo a máquina e os insumos utilizados na filtragem.

De acordo com o nefrologista, as Terapias Renais Substitutivas são necessárias para pessoas que atingiram 15% ou menos da capacidade de funcionamento dos rins. São três disponíveis: a hemodiálise convencional, o transplante e a Diálise Peritoneal Manual ou Automática.

Quase todos os pacientes podem fazer a terapia, com algumas excessões. Aqueles que já fizeram cirurgia no abdômem ou tiveram alguma lesão nesta região nem sempre poderão se submeter ao tratamento.

“Quem precisa começar a terapia renal urgente também se enquadra nessa situação. Colocar o dreno exige uma cirurgia, tem que esperar cicatrizar e ele só pode ser usado após 30 dias. Nem sempre a pessoa pode esperar esse tempo todo porque o problema está em estágio avançado. Neste caso, nada impede que ela comece a diálise peritoneal depois”, informou o nefrologista.

De acordo com a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), atualmente, em Minas, 10 mil pacientes realizam todos os tipos de diálise. No total, 100 mil brasileiros fazem o tratamento. Não existem dados separados para a peritoneal, mas a estimativa é que cerca de 10% dos pacientes sejam atendidos dessa forma.

Vida nova

Em fevereiro do ano passado, o professor universitário João Carlos Curtinhas, de 56 anos, começou a Diálise Peritoneal. Portador de problemas renais há mais de 20, ele já passou por várias fases. “Perdi os dois rins, precisei fazer hemodiálise e consegui fazer o transplante pois minha esposa é compatível. Mas anos depois eu tive leishmaniose e perdi o órgão novamente”, contou.

Após muita pesquisa, ele descobriu a terapia e começou a se submeter a ela. Inicialmente a manual e depois a automática. “É uma terapia que não depende de terceiros. Além disso, o impacto não é tão acentuado quanto na hemodiálise. Sintomas como queda de pressão, febre ou dores de cabeça não existem com a peritoneal”, disse.

A mudança de vida foi significante, segundo João Carlos. Com a nova terapia, ele realiza o procedimento de retirada das toxinas durante a noite, enquanto dorme, e de dia pode levar a vida normalmente.

“Consigo fazer absolutamente tudo. Tenho o dia todo para ficar por conta da minha rotina. Até mesmo viajar eu posso. Basta levar a máquina e realizar o procedimento quando eu for dormir”, afirmou o professor que mora em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, e vem a Belo Horizonte uma vez por mês para realizar exames e acompanhamento médico.

Ter um problema renal crônico inspirou o professor a criar uma casa de acolhimento para paciente renais, que recebe também pacientes com câncer. “Acho importante ajudar”, definiu.

Diagnóstico precoce

Os rins são importantes para a filtragem das toxinas do organismo e liberação das mesmas pela urina. No Dia Mundial do Rim, comemorado nesta quinta-feira (12), instituições de todo o país alertam para a importância de se descobrir doenças renais precocemente. Assim, o tratamento começa mais rápido e nem sempre o paciente chegará ao ponto de depender de uma Terapia Renal Substitutiva.

De acordo com o nefrologista José Augusto Meneses, os grupos ou fatores de risco para problemas renais são: pessoas obesas, tabagistas, acima de 50 anos, quem tem história familiar de problemas renais, diabetes, hipertensão, ou problemas cardiovasculares – ou tem alguma dessas últimas três doenças.

“É um indicativo para que essa pessoa procure um médico e faça exames simples que já dão o diagnóstico necessário. Se trata da medida de creatinina, por meio do exame de sangue, e exame de urina com dosagem de albumina. Com eles você já consegue saber se o paciente tem ou não um problema renal”, destacou.

Com a doença já manifestada, os sintomas principais de doenças renais são urinar mais no período da noite, a urina apresentar textura e coloração diferente (espumosa, muito clara ou muito escura), inchaço no rosto e nas pernas. O cálculo renal também pode ser um sinal de que algo não vai bem. “Ele indica um distúrbio que pode culminar com uma doença crônica. Pacientes assim devem ficar atentos”, disse.