O tempo de deslocamento entre Belo Horizonte e cidades da região metropolitana, no horário de pico, é o mesmo gasto até municípios quatro vezes mais distantes da capital. Situação provocada, conforme especialistas, pela falta de planejamento integrado no transporte da Grande BH. Até Nova Lima, por exemplo, o percurso de 22 km, feito em até 30 minutos em condições normais de tráfego, pode durar quase duas horas no rush.

É o que acontece diariamente com a analista de comunicação Juliana Thaís Soares, de 21 anos. Moradora de Nova Lima, ela começa o expediente às 9h30, na agência em que trabalha na zona Sul da capital. De ônibus, o trajeto de ida é feito em uma hora e meia. Na volta, por volta das 18h30, o deslocamento pode chegar a duas horas.

Esse é o tempo que o motorista profissional Norival Silva, de 37 anos, gasta para ir de BH a Itabira (região Central). Os 111 km que separam as duas cidades são percorridos em uma hora e 45 minutos, segundo ele. “Em Belo Horizonte, faltam opções de desvio. Se há acidente na Via Expressa, quem está vindo de Contagem ou Betim fica preso no engarrafamento”, destaca.

Mas mesmo sem eventualidades no trânsito, quem segue diariamente para Contagem, a 21 km do Centro da capital, relata demora. “De carro, tanto para ir quanto para voltar, eu levo uma hora e 45 minutos. Se tem acidente, fico mais de duas horas”, diz o psicólogo Breno Calábria, de 55 anos, morador do Santa Lúcia, zona Sul de BH.

Quem vive em Betim, a 30 km da capital, também reclama. É o caso da publicitária Jéssica Lima, de 25 anos. “Se pudesse, trabalhava na cidade onde moro, mas lá minha área é ruim”. De carro, ela sai de casa às 6h10 em direção à empresa, na zona Sul de BH, onde tem de estar às 8h. O retorno dura cerca de uma hora e dez minutos. Esse também é o período que a universitária Luiza Lambert, de 22 anos, fica no ônibus, no início da manhã, no trajeto de Lagoa Santa, a 35 km de BH, à Pampulha. “Com trânsito normal, levo 40 minutos”.

Professor de engenharia de transporte e trânsito da Universidade Fumec, Márcio Aguiar diz que viagens longas, mesmo para cidades vizinhas, decorrem do saturamento das vias. “É preciso melhorar o transporte público de forma integrada com a região metropolitana. Muitos usam o carro porque o coletivo é ruim”.

Planejamento integrado é o que também defende o líder do Grupo Técnico de Mobilidade Urbana, do Sindicato das
Empresas de Transportes de Cargas do Estado de Minas Gerais (Setcemg), Leandro Medrado. “A falta de um sistema metropolitano coletivo faz o tempo de percurso ser maior, principalmente no horário de pico”. Para ele, a situação pode melhorar com o plano de mobilidade em elaboração pela Agência de Desenvolvimento da RMBH. A proposta de integração dos órgãos está em análise por Estado e municípios.

“O Move é uma das contribuições para melhoria da mobilidade, mas cada local e cada situação exigem uma solução distinta. O que se busca é a criação de uma rede multimodal que torne os meios coletivos mais atraentes”, diz o diretor-geral da agência, Saulo Carvalho.

Reflexo

O trânsito complicado nas vias de acesso da região metropolitana já começa a refletir em viagens para o interior. Na sexta-feira, o empresário Ulisses Martins levou três horas para chegar a João Monlevade (Central), percurso geralmente feito em 1h30. “Na minha empresa, as reuniões que demandam viagem são marcadas para mais tarde, ou saímos com muita antecedência para evitar problemas”.