A velocidade dos veículos nas ruas, a pressa das pessoas ao atravessá-las e as calçadas, até então desconhecidas, dão o tom do novo mundo. O que se fala não é compreendido, mas há liberdade, segurança. Não são necessárias palavras, elas virão com o tempo. Existem pessoas nas ruas, e isso basta. O olhar admirado para o cotidiano, que nos passa despercebido, tem uma explicação. As bombas e tiroteios agora fazem parte do passado, não muito distante.

Com idades entre 19 e 24 anos, os rapazes recém-chegados a Belo Horizonte fogem de uma realidade assustadora. Nenhum dos cerca de 20 milhões de mineiros, população semelhante à do país do Oriente Médio, pode sequer imaginar o que é viver hoje na Síria. E, mais do que isso, ser homem em idade de alistamento obrigatório para o exército local.

“Somos ‘convocados’ a participar de uma guerra que não é nossa. A negativa pode levar ao sequestro de um membro de sua família para garantir o recrutamento de um novo soldado. Já imaginou ter que responder ao chamado vendo alguém segurando uma faca contra o pescoço de um parente seu?”, conta Rafik Samaar, de 22 anos.

Não se trata de uma exceção. “É difícil explicar o que senti quando perdi minha casa. Meu bairro todo foi explodido e minha família teve que fugir. Não quero fazer parte disso e não há escolha, senão partir”, afirma Bahij Massouh, de 24. Os dois jovens moram com outros quatro sírios que viveram situação semelhante.

Os primeiros chegaram a Belo Horizonte no fim de janeiro e hoje já são 16. Outros seis devem chegar na cidade na próxima semana. A ponte com a capital mineira foi feita pelo padre, também sírio, George Rateb Massis, responsável pela paróquia Sagrado Coração de Jesus, no bairro Santa Efigênia.

Natural da cidade de Homs, o religioso se valeu do contato de parentes e amigos para evitar o ingresso dos jovens no conflito armado, que dura mais de três anos.

“Esses meninos contam histórias que são verdadeiras sinfonias de bombas, uma canção da morte que os acompanha. Eles podem e devem ter uma vida diferente”, explica o padre George. Uma oportunidade valorosa que os conterrâneos sabem reconhecer.

“Aqui me sinto uma pessoa que pode ter amigos e paz. Esse país é como um céu com estrelas. Estou longe da minha família, mas eles estão sempre em meu coração”, diz Massouh. Os sírios ainda não sabem quando vão poder voltar para casa, e até que esse dia chegue, eles vão sonhar com uma terra onde seja possível andar livremente pelas ruas.

- Dificuldade de encontrar emprego e se relacionar

Cercados de estrangeiros, longe da família e amigos e inseridos em uma cultura completamente diferente, os jovens sírios buscam superar os obstáculos e levar uma vida “normal”. Como tantos outros rapazes de sua idade, eles querem trabalhar, estudar, conhecer pessoas e lugares. Mas a língua é, a priori, o principal entrave.

Eles falam inglês, além do árabe, mas não conseguem se comunicar com os belo-horizontinos. Morando a poucos metros da Praça da Liberdade, um dos pontos turísticos mais famosos da capital, ainda não conseguiram andar pela alameda Travessia. “É difícil encontrar alguém para conversar, por isso só vamos da igreja para casa”, conta Rafik Samaar.

Mas as coisas devem mudar em pouco tempo. Poliglota e autodidata, Bahij Massouh já está conseguindo se comunicar em português. “As pessoas são educadas e gostam de estrangeiros, o que torna o aprendizado mais fácil. O próximo passo é conseguir um emprego”, afirma o rapaz. Todos os 16 sírios são formados e qualificados em suas respectivas áreas.

Rafik é advogado e Bahij formado em turismo. Entretanto, mesmo vencendo a barreira da língua, não há garantia de que a inserção no mercado de trabalho será uma etapa natural. Para compensar as dificuldades, eles contam com a ajuda da comunidade síria em BH.
“Somos uma mão estendida nesse momento de necessidade. Quem sabe assim eles esquecem um pouco de um passado tão duro”, diz o padre George Massis.

- Triplicam os pedidos de refúgio no Brasil

O Brasil tem sido, cada vez mais, o destino de refugiados de todo o mundo. O número dessa população no país mais do que triplicou de 2012 para 2013 segundo balanço divulgado pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça. No ano passado, foram expedidas 651 autorizações de refúgio para estrangeiros, contra 199, em 2012. Do total de pessoas para as quais foi concedido refúgio no ano passado, 284 têm a Síria como país de origem, o que representa 43,6%.

Pessoas que fugiram da guerra civil que atinge o país. “O conflito começou em 2011, quando se iniciaram os protestos contra o governo do presidente Bashar al-Assad. O resultado disso é uma guerra muito violenta que afeta o país e gera um fluxo de refugiados que é o maior no mundo hoje”, explica o professor do Departamento de Relações Internacionais da Puc Minas Danny Zahreddine.

E o prognóstico do cenário para os próximos meses não é positivo. “O governo sinaliza que deve convocar eleições no meio do ano e o atual presidente deve concorrer. Ele é apoiado pela Rússia e combate os rebeldes, que têm apoio dos Estados Unidos. São interesses mais do que políticos, o que torna a situação muito delicada”, afirma o professor.

País preparado

O governo brasileiro alega estar preparado para o aumento no fluxo de refugiados, embora assuma a existência de problemas na prestação de serviços vitais.

"Os refugiados podem utilizar serviço de saúde ou educação, como qualquer brasileiro. Mas essa compreensão é gradativa, já que se trata de uma demanda nova em algumas regiões do Brasil. Procuramos localizar os territórios onde esses refugiados estão se estabelecendo para que haja ofertas de serviços”, diz o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão.

Quando um estrangeiro se apresenta às autoridades brasileiras em situação de refúgio, ele garante de imediato o acesso a documentos como carteira de trabalho e CPF. Ele fica de forma legal no país enquanto tramita o processo iniciado com a chegada.