Reconhecer o vício, procurar e aceitar o tratamento são desafios árduos aos dependentes químicos. Instituições de apoio como a Associação Mineira de Pais e Amigos para Prevenção e Recuperação do Abuso de Drogas (Ampare) são importantes nesse processo, mas as famílias têm papel crucial na recuperação. Elas devem despertar no usuário de drogas a real necessidade de buscar auxílio profissional.

Mais do que um simples desejo de melhorar, alcoólatras e toxicômanos precisam descobrir, na prática, por que precisam do tratamento. E é muito raro que consigam isso sozinhos, segundo Cristiana Abreu Souza, psicóloga e coordenadora clínica da Ampare.
 
Ela diz que o primeiro passo para despertar a aceitação do dependente é a família procurar orientação. Depois, aprender a deixar o parente sentir na pele as consequências da doença, parando de protegê-lo ao extremo. “Vemos famílias que até pagam as dívidas do usuário com traficantes. Mas elas não podem ser superprotetoras, ou seja, co-dependentes. Às vezes, os demais membros estão tão doentes quanto o dependente”, alerta Cristiana.
 
Sem ameaças
 
Mas é claro que todos devem acompanhar de perto e dosar esse processo, sem usar o método para chantagear ou ameaçar o paciente. A proposta é que a família se fortaleça e posicione-se de forma funcional.
 
“Na medida em que a pessoa desrespeite as regras, perca a honestidade e o respeito, deve sentir as consequências desse comportamento. A família não tem que tolerar todas as atitudes do dependente, e pode intervir”, esclarece a psicóloga.
 
Sob controle
 
Foi o que fez a irmã de B.S.O., de 55 anos, que há seis anos conseguiu controlar o vício em álcool. Alcoólatra desde os 15 anos, ela começou o tratamento tardiamente (aos 49 anos) porque achava que a bebida não atrapalhava as atividades como empresária. A ironia é que um dos empreendimentos dela era um bar. “Eu chegava todo dia para trabalhar e escolhia o que ia beber”, contou.
 
Até que a irmã percebeu que a situação estava insuportável para ambas, e conduziu-a ao tratamento na Ampare. “Eles nos ajudam a fazer uma retrospectiva da nossa vida, do que nos levou àquele ponto e nos fazem perceber o mal que o vício nos causou”.
 
Atualmente, B. está recuperada. Ministra uma oficina de artesanato para dependentes químicos em tratamento na Ampare, frequenta academia, cinemas, teatros e viaja na companhia da irmã.