Moradores de Conselheiro Pena, no Vale do Rio Doce, protestaram nesta quinta-feira (20), paralisando a BR-259, principal rodovia que corta a região. E, até o movimento, planejado por quase dois meses, sofreu os impactos da falta de acesso com a ausência de quatro ônibus com manifestantes, que não conseguiram sair dos distritos por causa da chuva na noite anterior. O mesmo acontece com a produção de café, leite e eucalipto, há anos. Só em dezembro, os prejuízos com o leite é de mais de R$ 100 mil.
 
Os manifestantes pedem o asfaltamento de 56 quilômetros da LMG-788, trecho entre Conselheiro Pena ao distrito de de Cuité Velho, no município de Itueto; ; e de lá até o município de Alvarenga, trecho conhecido como MCG-458. Também reivindicam a pavimentação de 24 quilômetros de uma estrada municipal entregue ao Estado em 1989. . As duas estradas estão incluídas no Programa Caminhos de Minas.
 
Com o nome “Sem estrada, sem votos. Asfalto Já”, o movimento tenta convencer eleitores da região a não votarem nas próximas eleições, caso as duas estradas não sejam feitas. Nesta quinta-feira pelo menos mil pessoas participaram da paralisação que durou duas horas e provocou engarrafamento de cerca de dez quilômetros nos dois sentidos da rodovia. A obra é reivindicada há mais de 20 anos.
 
O produtor José Luiz Caus conta que tem 40 mil pés de eucalipto no ponto para serem cortados, mas sem estrada a empresa não faz o serviço.  E assim como ele, em dezembro os produtores de leite da cidade e região que dependem das duas estradas não conseguiram entregá-lo na cooperativa e a produção acabou perdida. A região produz cerca de 100 mil sacas de café de montanha, anualmente. “Escoá-lo também é um grande desafio. Essa manifestação é justa e necessária. Produzimos, mas os governos têm que fazer a parte deles”, explica.
 
Segundo a juíza da Comarca, Angélica Ferrari, presente na manifestação, em 1989, o trecho de 24 kms da LMG-788 foi traçado e preparado para receber o asfalto. No ano passado o projeto foi concluído e aprovado, mas a licitação marcada para acontecer em setembro não foi realizada.  Para trafegar, os moradores têm consertado as estradas com recursos próprios. Na semana passada fizeram um mutirão para nivelar a ponte sobre o córrego Itatiaia, mas a estrutura está abalada e a passagem, além de perigosa, é provisória. Um caminhão carregado com eucalipto tombou nessa estrada.
 
Fevereiro está terminando e muitos alunos da zona rural ainda não conseguiram voltar para a escola, conta a juíza. ”Os cidadãos estão dispostos a não irem para as urnas eleitorais em outubro próximo, tanto pelo abandono, quanto pela falta de condições mesmo de se deslocarem até as urnas”, explica a juíza. “Os buracos na estrada, os abismos, pontes já com necessidade de implosão, pedras e terrenos irregulares com altitude de quase mil metros, colocam em risco a vida de todos que transitam por ela, “sejam os caminhoneiros, sejam os jovens que vêm estudar em Conselheiro Pena,  produtores ou doentes”, desabafa.
 
Eleições
 
Segundo a juíza da Comarca, Angélica Ferrari, o número de eleitores aptos a votarem nesta região cortada pelas estradas é de 2.633, com previsão de 10% de aumento para aqueles que regularizarão sua situação até maio de 2014, sem contar os jovens aptos a se alistarem e aqueles que poderão transferir títulos, com um cálculo de 500 pessoas a mais.  
 
“Na situação em que se encontra as estradas,  haverá um comprometimento na logística de distribuição das urnas, deslocamento dos servidores, enfim, sério problema para os cartórios eleitorais deixarem as sessões eleitorais em condições de receberem o eleitor. Lado outro, o eleitor não está disposto a sair de sua casa sem que tenha condições dignas de transitar por aquela estrada. Estamos tentando mudar isso, convencê-los a ir às urnas", diz a juíza. Levando-se em conta o número de eleitores, mais 40% correspondem a toda a população afetada com a falta do asfalto, ou seja, 3.686 habitantes.