O assassinato de dois usuários de crack na última sexta-feira (31), na região Central de Belo Horizonte, escancara a falta de controle sobre a droga na cidade. Até o poder público admite que a estratégia para tratar os dependentes é falha, devido a dois fatores: falta de profissionais para abordá-los e acolhê-los e o perfil “nômade” dos viciados. “A situação em Belo Horizonte é grave, tem uma dimensão que não existe em outro lugar no Brasil”, diz o psiquiatra Paulo Repsold, diretor do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas.
 
Ele refere-se principalmente ao processo migratório dos usuários de crack, que na capital mineira não têm “endereço fixo”: vagam por ruas, becos e aglomerados. Em São Paulo, compara, 90% desse público fica na “cracolândia”, no Centro. 
 
A polícia de Minas alega que a dispersão é resultado de ações para enfraquecer traficantes, mas a tática das forças de segurança acaba dificultando o trabalho de servidores da saúde e assistentes sociais que, em número reduzido, não consegue localizar e atender todos os usuários de crack. 
 
Hoje, há 131 profissionais da saúde, quatro consultórios de rua e três Centros de Referência em Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Cersam) na capital, número insuficiente diante da demanda. 
 
Embasamento
 
A prefeitura aguarda o resultado de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre moradores de rua e usuários de crack para tentar mudar o quadro. “É preciso ter em mente que é uma ação de saúde pública, não apenas de abordagem policial”, diz Paulo Repsold. 
 
Segundo o médico, assim que o resultado do estudo da UFMG for divulgado, novas estratégias poderão ser lançadas. “A demanda por tratamento é sempre crescente. Vamos qualificar mais profissionais da saúde e assistentes sociais. Essa migração (dos dependentes químicos) dificulta nossa atuação e exige mais servidores”, afirma. “Além disso, vamos ampliar o número de leitos nos hospitais para internações”. 
 
O subsecretário de Políticas Antidrogas do governo de Minas, Cloves Benevides, garante que as ações do poder público têm como característica diferenciar usuários e traficantes. “É preciso planejamento. Tirar essas pessoas das ruas é desafiador, mas trabalhamos para isso”. 
 
Em 2013, o SOS Drogas registrou 114.190 atendimentos por telefone, 3.971 presenciais e 2.331 em grupos. 
 
Execução
 
Os crimes da última sexta-feira (31) tiveram como vítimas dois homens. Um foi morto na rua Aarão Reis, próximo à Praça da Estação. O outro, debaixo do Viaduto da Floresta. Segundo a polícia, um adolescente de 16 anos confessou os homicídios. No bolso da calça de uma das vítimas havia cerca de 40 pedras de crack.
 
Segundo a chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Cláudia Romualdo, evitar que os dependentes se concentrem é parte da estratégia da PM para desarticular o tráfico de drogas. 
 
“É preciso romper o vínculo do traficante com o usuário, e para isso é preciso retirá-los dali”, diz. Para ela, só quebrando a logística do tráfico haverá condições de o poder público ajudar quem precisa. 
 
Família é indispensável para evitar recaída, afirma especialista
 
Em vez de uma grande cracolândia, BH tem vários pontos públicos de consumo da droga. Infiltrados entre moradores de rua, usuários com o olhar perdido vagam dia e noite, feito zumbis, pela cidade. 
 
Junto ao IAPI, na região da Lagoinha, dezenas de viciados que chegaram a dar fama ao local de “cracolândia” foram substituídos por um grupo que mal chega a 15. Um deles é “Pimpolho”, de 27 anos, morador da Pedreira Prado Lopes (PPL). Ele afirma que ficou dois anos sem fumar, mas por falta de apoio familiar acabou voltando. 
 
Já “Soltemar”, de 21 anos, estudou em colégios de classe média e sempre almoçou em família aos domingos. Após um dia de aula, colegas o convidaram para experimentar o crack. Em pouco tempo, o jovem estava dependente e desafiava os pais para consumir a droga nas ruas. “Larguei um emprego que, na época, me pagava R$ 2.500”. 
 
Na avenida do Contorno, perto da rodoviária, a carioca Luciana, de 36 anos, divide um colchão com o marido e três amigas. “Mudei para BH aos 7 anos. Comecei a usar crack aos 15 e já fiz vários tratamentos”. Grávida de dois meses, ela pede socorro. “Quero abandonar esse vício, mas não consigo sozinha”. 
 
Para o psiquiatra e professor da UFMG Frederico Garcia, a presença da família é fundamental na recuperação. “Não adianta o Estado e o município criarem estratégias para o controle dessa doença crônica se a população não ajudar. O dependente precisa, após o tratamento, de ser inserido na sociedade e a ajuda da família e dos amigos é fundamental nesse processo de recuperação”.