“Sobre as coisas que você têm escrito, eu sinto muito em dizer, mas elas eram muito piores”. A afirmativa é do psiquiatra José Raimundo Lippi, que, entre 1969 e 1972, foi diretor do então Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. O médico vem acompanhando a série de reportagens que o Hoje em Dia publica desde o último domingo, sobre o casarão da rua Manaus, no bairro Santa Efigênia e o sítio arqueológico urbano encontrado nele.

O médico não apenas confirma os horrores cometidos no prédio centenário, como garante que coube a ele fechar, no seu primeiro ano de gestão, as alas no interior do casarão destinadas a acolher as crianças internadas mais “agitadas”.

“Até 1969 aquilo não era um hospital. Não existia sequer um ambulatório para atender aquelas crianças”, recorda o médico, que também foi professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Neuropsiquiatria Infantil (de 1978 a 1986).

Lippi explica que quando assumiu a direção do hospital, os pacientes não contavam com amparo de profissionais. “Antes de 1969, as crianças eram apenas internadas. Não existiam medicamentos eficazes, por isso o eletrochoque era tão utilizado, muitas vezes sem anestesia”.

Princípio da Mudança

Somente no início da década de 1970, profissionais do serviço social, neurologia, psicologia, entre outros, passaram a realizar atividades no casarão. “Além de prestar atendimento, muitos nomes importantes ministraram palestras por lá. Era o início da mudança”, recorda.

O psiquiatra reforça que nos anos de treva do casarão, a internação era considerada “a via final das mazelas sociais”. “Um dia, dois policias bateram à nossa porta com uma criança que não apresentava qualquer sintoma de loucura. Era apenas um menino pobre. Ainda assim, eles chegaram com a missão de interná-la no hospital. Eu os convidei para entrar e os convenci de que não poderíamos receber aquele menino”.

Foi somente a partir de medidas como essa que o casarão passou a selecionar, a partir de meios científicos, os pacientes que de fato precisavam de internação.

“A barbárie era aceita porque a sociedade não queria ver a loucura que, de alguma forma, todos nós carregamos. Por isso admitia a perversidade. A humanização de todo o processo foi gradual”.

Mesmo após quase duas décadas de abandono, as paredes do casarão preservaram as marcas de dor dos que passaram por lá. Para Lippi, uma oportunidade e tanto para Belo Horizonte abrir as portas dos seus sombrios porões.

Uso do casarão será alvo de novo debate na próxima quarta-feira

Após mais de três horas de reunião entre representantes do Espaço Comum Luiz Estrela, Governo de Minas e o Ministério Público, a desocupação do casarão da rua Manaus, 348, no Santa Efigênia, continua pendente.

O impasse voltará a ser discutido na próxima quarta-feira, às 16h, na Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente, Patrimônio Histórico e Cultural, Habitação e Urbanismo.

Segundo o assessor de imprensa do Espaço, Victor Diniz, os invasores aceitam desocupar o imóvel, desde que o Governo libere uma casa, que pertence à Cemig, e que fica ao lado, para as atividades culturais.

A assessoria de imprensa do governo informou que tentará resolver o problema no próximo encontro. A reunião de ontem aconteceu um dia depois de a Diretoria de Patrimônio Cultural de BH aprovar o projeto do Espaço Comum Luiz Estrela, concedendo a ele o direito de executar as obras emergenciais para garantir a preservação do casarão tombado onde o centro cultural está instalado.

Entre as obras iniciais estão o escoramento das paredes e o fechamento do telhado. A proposta do Espaço foi concebida pelo engenheiro Bernardo Abrão Lopes, a arqueóloga Camila Jácome, a arquiteta Priscila Musa, o historiador Francisco Amorim e o antropólogo Rafael Barros.