Era para ser apenas uma festa para comemorar o Dia das Crianças, em 1960. Mas aquela tarde no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil traz recordações de tristeza e maus-tratos. “As crianças ficavam em salas como bichos. Elas gritavam muito e eu não entendia por que, até que um médico nos convidou a assistir como ele as acalmava. Foi quando dois enfermeiros retiraram uma menina que estava presa e deram um eletrochoque nela. Foi terrível ver aquela garota se debater até dormir”.
 
O relato é de Maria das Graças Lopes Passos, professora aposentada, de 72 anos. “Naqueles dias, eu e meus amigos estávamos nos formando como professores. Por isso fomos até o hospital. Queríamos fazer uma festa, mas saímos de lá arrasados. Era para ser um dia feliz, mas essa é a memória que guardo daquele lugar”, lamentou Maria das Graças.

Ela procurou o Hoje em Dia após ler a série de reportagens sobre o casarão localizado na rua Manaus, 348, no bairro Santa Efigênia. Há 30 dias foi encontrado no prédio um sítio arqueológico urbano com vestígios de tortura nos pacientes psiquiátricos que passaram por lá entre 1947 e 1979.

“A história dessas pessoas não pode ser esquecida e, mais ainda, ela precisa ser contada”, pediu a também professora Dora Magalhães, 53 anos, que entre 1981 e 1994 trabalhou no prédio enquanto abrigava a escola para crianças com necessidades especiais. Ela também procurou a reportagem para relatar sua vivência no prédio.

“Li os jornais desde domingo e senti-me emocionada com as reportagens. Quero dizer que hoje estou do outro lado: não trabalho mais com a educação segregadora e excludente que aconteceu no casarão. Hoje, trabalho em prol da inclusão de pessoas com deficiência nas escolas comuns e na sociedade. Foi uma época cruel com muitas pessoas”, afirmou Dora.

Apesar dos avanços, louco ainda é visto como sujeito incapaz

Há cinco anos trabalhando com arte e saúde mental, a atriz-improvisadora Renata Corrêa ministra oficinas de teatro no Centro de Convivência de Saúde Mental da Prefeitura de BH e está à frente da luta antimanicomial na cidade.

Acompanhando de perto a ocupação do casarão da rua Manaus, ela acredita que nuances de uma história da loucura começam a ser reveladas. “A preservação desta memória e a busca por vestígios de um passado é válida e fundamental. É a partir dessa lembrança que reconhecemos a importância de dizer sobre a resistência em um cenário histórico de sofrimento e opressão”, afirmou.

Apesar dos avanços da psiquiatria, ela lamenta que a sociedade ainda enxergue o louco como um sujeito incapaz, improdutivo e muitas vezes violento. “É necessário lutar pelo direito à dignidade e ao respeito que merece todo cidadão. Principalmente no que diz respeito às pessoas que ficaram anos internadas, esquecidas no tempo em hospitais psiquiátricos”.

A loucura e a sociedade moderna

O antropólogo Rafael Barros afirma que falar da história da loucura e do diagnóstico clínico do louco é discutir a própria história da sociedade moderna.
“Estamos pensando em como a sociedade se estruturou diante do poder e da clausura. Isso é associado à infância é mais forte ainda: a existência dessa faixa etária é muito recente”.