“Era uma visita rotineira, quando uma enfermeira muito nervosa e exausta passou por mim. Eu então comentei com a diretora do casarão sobre a atitude da moça: ‘Essa enfermeira parece que vai explodir’, mas a diretora afirmou que aquela era a melhor funcionária que eles tinham. Instantes depois, aquela mesma enfermeira bateu em uma criança. Até hoje penso: ‘Meu Deus, aquela era a melhor enfermeira que eles tinham e fez aquilo bem na minha frente”.

O depoimento é do psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho, de 80 anos, que na época assumia o cargo de superintendente da Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica, substituída, em 1977, pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).

O episódio deu-se no casarão da rua Manaus, no bairro Santa Efigênia, enquanto o local ainda abrigava o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil.

Desde domingo, o jornal Hoje em Dia vem publicando uma série de reportagens sobre o prédio que preserva um sítio arqueológico urbano com vestígios de terror, clausura e sofrimento dos pacientes que passaram por lá entre 1947 e 1979.

Após fazer denúncias relatando casos como o citado e outros muito mais cruéis, em BH e outras cidades, durante o III Congresso Mineiro de Psiquiatria, Simões não apenas foi afastado do cargo, como foi demitido da Fhemig. “As torturas não tangiam apenas o físico, mas também o psíquico e, nesses lugares, seja no casarão ou em Barbacena, elas ganhavam forma e proporção inimagináveis”.

“O modelo aplicado na época foi capaz de enlouquecer não apenas os que estavam internados, mas também os profissionais que trabalhavam nesses lugares”, destacou Ronaldo, que foi fonte para o livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex (Geração Editorial, 272 páginas).

Segundo ele, até o fim da década de 70, para ser internado em hospital psiquiátrico o paciente não passava por uma seleção necessariamente científica. “Os critérios iam desde você ser herdeiro de uma família muito rica e ela não desejar que você ficasse com a herança; até ser casada com um marido que queria se ver livre de você porque arrumou uma amante. E, claro, existiam os casos de muitos moradores de rua internados. A loucura foi a solução encontrada para a sociedade se livrar dos problemas que a incomodavam”, disse.

Porões da loucura ficaram escondidos por um armário

O psicólogo Francisco Viana foi, na década de 1990 – até o fechamento do casarão, em 1994 –, o diretor do Centro Psicopedagógico Hospitalar, nome que o casarão passou a assumir a partir de 1979, ano em que as atividades do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil foram encerradas.

“Não vimos nada porque havia um armário que encobria esse espaço. Durante todo o tempo, nunca imaginei que por trás dele estava escondido um lugar tão sombrio como esse, que começa a ser revelado”, comentou.

Viana não acredita que o lugar tenha sido criado para abrigar crianças. “É sabido que o casarão, nos primórdios, era ocupado por um Hospital Militar. No fim da gestão, o lugar passou a receber, principalmente, oficiais que apresentavam problemas psiquiátricos. Era nessas celas que eles ficavam e que mais tarde, ao que indicam os vestígios, passaram a guardar as crianças”.

Em 1982, a enfermeira psiquiátrica Paula Cambraia também passou pelo casarão. “Também não me lembro das celas, mas recordo bem da sensação de abandono. Era um lugar triste”, disse.