A recente transformação do Cruzeiro em Sociedade Anônima do Futebol (SAF), com Ronaldo Fenômeno à frente como acionista majoritário, tem despertado a atenção não apenas da torcida celeste, como também de figuras marcantes da história do clube.

É o caso de Manoel Rezende de Mattos Cabral, o Nelinho, ídolo da China Azul e lateral com mais gols pelo time estrelado, com 105 bolas nas redes.

Em entrevista ao Hoje em Dia, o campeão da Copa Libertadores pelos azuis em 1976 e técnico de Ronaldo no próprio Cruzeiro, no início de 1994, avaliou o momento vivido pela Raposa e a chegada do Fenômeno.

Como o senhor está vendo esse momento do Cruzeiro?

São mudanças necessárias. Não sei se vão dar certo, mas alguma coisa tinha que ser feita. O passo foi dado, agora é torcer para que as pessoas que estão à frente do clube neste momento consigam o objetivo traçado, que nada mais é do que colocar as contas em dia, fazer aquilo que sempre deveria ter sido feito, que é não gastar mais do que arrecada, e assim em diante. O Ronaldo não deve estar só, deve ter alguém por trás ajudando também, e as intenções certamente são as melhores. A gente que está de fora torce para que dê certo.

Como ídolo e torcedor do Cruzeiro, te incomoda o fato de o clube estar nas mãos de investidor?

Não me incomoda de forma alguma. O importante é resolver o problema que se acumulou ao longo dos últimos anos. E a forma de se resolver é manter o que vinha sendo feito antes? Não acredito. Alguma coisa de diferente tinha que ter sido feita. Esse passo (mudança para SAF) foi o acertado neste momento.

Por que considera que o modelo da SAF será bom para o Cruzeiro?

São pessoas que vão entrar lá e colocar dinheiro e que, com certeza, visam ao lucro. Todas as vezes em que um grande empresário entra em uma operação visando ao lucro, ele trabalha bem. Ele não vai desviar um dinheiro que é dele, quer fazer as coisas certas para que o clube tenha lucro e volte a competir em igualdade de condições com os principais clubes do país. Por que um cara que entrar no Cruzeiro para dirigir o clube, ser diretor disso ou daquilo, ser presidente, tudo não remunerado, vai deixar de cuidar das suas coisas particulares para cuidar do clube? Isso é conversa para boi dormir. Quem faz isso? Um cara que vai para o clube nessas condições claro que vai tentar tirar proveito. Então, o dirigente tem que ser remunerado, trabalhar para isso. Agora, sendo empresa, tendo empresários a frente, com o Ronaldo como principal nome, eu acredito que vai dar certo. Se não der certo, não seria o modelo que estaria errado, seriam as pessoas que não fizeram a coisa certa. O modelo é esse: chegar gente de fora com grana e fazer as coisas certas para que amanhã o clube volte a dar lucro.

Diante disso, o senhor acredita que o Ronaldo é capaz de reerguer o Cruzeiro?

Eu acredito que o grupo de trabalho dele seja capaz. Não acredito, sinceramente, que seja só ele (à frente do Cruzeiro). Se fosse só ele, eu não acreditaria, porque esse trabalho (de reestruturação do clube) é para um grupo, não para uma pessoa apenas. Claro que ele (Ronaldo) pode ser o responsável pela montagem dessa equipe de trabalho. Ele é o principal responsável por escolher essas pessoas para o trabalho de colocar o clube em dia.

Na sua visão, onde o Cruzeiro mais errou nos dois últimos anos, em que passou longe de voltar à Série A?

Acho que foi nas contratações. A gente viu clubes que têm problemas como o Cruzeiro tem, com a maior dificuldade financeira, e que conseguiram formar um grupo de jogadores, voltando à Série A. O Botafogo não tem problemas? O Coritiba não tem problemas? Os dois têm. Mas e os elencos desses clubes que subiram são superiores ao elenco do Cruzeiro? São em termos de resultados, porque quando você para pra pensar, se equivalem (tecnicamente). Mas onde está o erro? As vezes em um jogador que não tem o perfil de uma Série B, jogadores que ainda não adquiriram confiança.

Qual o perfil de jogador que o senhor considera necessário para o Cruzeiro em 2022?

Eu acho que tem ser mesclado. Jogadores experientes com boa condição física e que tenham uma certa experiência de Série B com jogadores novos que passem a adquirir confiança e sejam até moedas de troca mais tarde. Atletas que se sobressaiam e possam render dinheiro ao clube.

Como avalia a gestão do presidente Sérgio Santos Rodrigues?

Bem intencionado. Não o conheço, não sei como é o dia a dia de trabalho dele no Cruzeiro. Então, é muito difícil de avaliar. Com certeza, tinha boas intenções, mas não deu certo. É culpa dele? Também, mas não acredito que seja o único culpado. Os culpados são todos aqueles que estiveram à frente do clube e não conseguiram dar a direção desejada.

Como vê a saída de Vanderlei Luxemburgo da Raposa?

Em primeiro lugar, achei muito bacana ele aceitar vir para o Cruzeiro, nas condições em que o clube estava. A renovação de contrato, pela luta dele para que o Cruzeiro não caísse para a Série C, foi correta. Mas também acho certo que aqueles que estão chegando, que vão botar dinheiro, queiram fazer à sua maneira. Se querem realmente reduzir custos, desfazer as contratações que foram feitas e contratar outro tipo de jogador, é direito daqueles que estão chegando com dinheiro.

E qual o perfil o senhor considera ideal para o Cruzeiro conquistar seus objetivos?

A primeira coisa é gostar e saber trabalhar com jovens. Porque qualquer treinador, quando pega um jogador mais rodado, já sabe quem é o jogador, o que ele gosta, então, se adapta bem a esse tipo de jogador. Com o jovem, você tem que conhecer ainda, saber lidar com esse jogador jovem para que ele se incorpore ao elenco e consiga render em campo. E aliar isso aos jogadores mais tarimbados, que ele já conhece, e vai saber lidar com mais facilidade, formam uma boa mistura.

O futebol mudou muito desde que o senhor parou de jogar profissionalmente?

O futebol mudou muito pouco. Existem aqueles jogadores técnicos, que você têm que privilegiar. Se você pega uma cara que tem técnica e der uma condição física e uma noção tática é mais fácil. Agora, você pegar um cara que não tem técnica nenhuma, não consegue resolver isso. Eu vejo que o futebol atual evoluiu na parte física. Quando você tem jogadores altamente preparados fisicamente, pode exigir que ele ataque e defenda, fica mais fácil. Na minha época, a condição física era outra. Agora, na essência, o futebol não mudou nada.

Qual sua perspectiva para os times mineiros para 2022?

O Atlético eu acredito que vá manter o nível. Não quer dizer que vá ganhar de novo o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil. Acho que o (título do) Campeonato Mineiro está bem encaminhado. O América, com a perda de alguns jogadores, vai ter que saber fazer a reposição, caso contrário vai cair de rendimento. Se tiver reposição à altura, acredito que vá manter o nível da última Série A. Já no Cruzeiro eu só acredito em melhora, não tem como piorar mais. O Campeonato Mineiro vai dar uma amostra de como vai ser o Cruzeiro.

Qual mensagem o senhor, como ídolo, deixa para o torcedor do Cruzeiro que vem sofrendo nos últimos anos?

Da mesma forma que o torcedor teve muitas alegrias nos últimos anos, principalmente no bicampeonato brasileiro em 2013 e 2014, e que também sofreu nesses dois últimos anos com o rebaixamento do clube, que continuem firmes, torcendo para o clube, querendo o melhor para o clube. Neste momento não tem outra saída a não ser ter paciência, acreditar naqueles que estão chegando bem-intencionados e dar moral para o time. Se os jogadores tiverem o apoio dos torcedores, fica mais fácil para se chegar ao objetivo. Se houver muita cobrança externa, principalmente os jogadores mais jovens, sentem bastante, e a dificuldade aumenta. Que o torcedor cruzeirense acredite que é possível a recuperação e dê um voto de confiança ao Ronaldo e para aqueles que virão com ele.

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Nelinho (o segundo da esquerda para direita, em pé) junto ao time campeão da Libertadores de 1976