Uma das maiores potências esportivas do país, o Minas Tênis Clube também se notabiliza ao longo dos seus 84 anos de existência pela excelência na formação de atletas. No caso do futsal não é diferente. Muitas gerações de jogadores que se destacaram nas quadras defenderam o clube da rua da Bahia no início de suas carreiras.

Ilustrando esse cenário, o Minas encerrou 2021 com resultados expressivos. Nesse ano, o time azul e branco conquistou o triplete da Taça Brasil, competição de clubes mais tradicional do futsal brasileiro. Do sub-17, passando pelo sub-20 e chegando ao profissional, o Minas fez o país se render ao talento de seus jogadores e de suas comissões técnicas.

Diante desse ciclo vitorioso, um profissional apareceu como um dos elos centrais desses títulos. Trata-se de Peri Fuentes, técnico do time principal do Minas. Gaúcho de Santa do Livramento, o treinador de 49 anos está há três no comando da equipe de cima minastenista, após outros três dirigindo o plantel sub-20 azul e branco.

Em entrevista ao Hoje em Dia, Peri conta detalhes desse processo de formação de jogadores e da missão de conseguir manter competitivo um time predominante jovem e com menor aporte financeiro que a maior parte dos principais concorrentes.

Como foi sua carreira até chegar ao Minas?

Não fui atleta de futsal, nem na base, muito menos no adulto. Sempre acompanhei o futsal em Porto Alegre, para onde me mudei aos sete anos. Tínhamos jogos transmitidos pelas rádios, havia Grenais (Grêmio x Inter), e os dois clubes tinham equipes de futsal. Entrei na faculdade em 1993 e no primeiro semestre comecei a trabalhar em uma escolinha de futsal. Foi amor à primeira vista. Daí me formei em 1997, comecei a trabalhar no Internacional com as escolinhas.

No ano seguinte, foi minha primeira experiência como técnico de equipe federada, também pelo Inter. Passei por todas as categorias de base. Minha primeira experiência em equipe adulta foi em 2002, como auxiliar técnico da equipe do Inter; o técnico era o Morruga. No ano anterior, eu havia sido técnico da equipe sub-20, categoria chamada na época chamada de juvenil. Depois passei dois anos na Ulbra, em que ganhamos Liga Nacional, Taça Brasil. Depois passei por Joinville por dois anos. Em 2007, foi minha primeira experiência como técnico de um time profissional, em São Leopoldo-RS.
Em 2009, tive uma experiência na Itália, ficando duas temporadas em uma equipe, conquistando o título da Segunda Divisão.

E como foram os últimos passos antes de chegar ao Minas?
Retornei ao Brasil e passei cinco anos em Blumenau-SC, com a equipe AD/Hering, sendo eleito o melhor treinador da Liga Nacional em 2014. Em 2016, a convite do Paulinho Cardoso, então técnico do time principal do Minas Tênis Clube, vim para o Minas trabalhar como técnico da equipe-20 e auxiliar do adulto. Permaneci assim até 2018. Em 2019, com a reformulação e a saída do Paulinho, fui promovido a técnico da equipe profissional.

Como o Minas consegue ser competitivo mesmo diante de adversários com investimento muito maior?
A formação dos jogadores sempre esteve no DNA do Minas. Procuramos garimpar atletas em todo o Brasil. Temos uma boa captação, aliada a uma excelente estrutura que o clube nos oferece de trabalho, de logística, alimentação e moradia. Não nos falta praticamente nada. Isso facilita muito. Um dos principais fatores também é a aposta da diretoria, a confiança em um trabalho a longo e médio prazo, sem ser imediatista.

Então, temos uma condição de proporcionar uma estreia (no time principal) a atletas jovens, coisa que em outros clubes é mais difícil, em função da necessidade de se obter um resultado “para ontem”. No Minas, temos suporte e respaldo da diretoria. Com isso, jovens talentos vão amadurecer e ganhar experiência dentro de quadra. Para dar um exemplo desse processo, na Taça Brasil que conquistamos em fevereiro, tivemos um atleta com 17 anos que foi campeão e jogando. Isso é raríssimo. Na Liga Nacional de Futsal, estreamos dez atletas com idade sub-20, sendo que cinco deles são sub-17. É um trabalho difícil, requer paciência e tranquilidade.

Quais são os pilares na formação de um atleta de futsal?
Caráter, disciplina e honestidade são características que não abrimos mão no nosso dia a dia. Na hora de mapear o atleta, procuramos informações tanto dentro quanto fora de quadra. Dentro de quadra é muito mais fácil de se encontrar (informações), porque você consegue ver jogos em qualquer lugar. Mas olhamos essas questões de comportamento do dia a dia, até porque representamos um dos maiores ou o maior clube do Brasil, então precisamos também ter uma conduta, uma responsabilidade.

O que foi decisivo na conquista de um título de tanta expressão como a Taça Brasil diante de adversários com muito mais investimento?
Eu estou no Minas há seis anos. Do grupo que foi campeão, tenho atletas que estão comigo há seis anos, muitos há cinco, outros há quatro. Pouquíssimos chegaram neste ano (2021). Então, é processo, continuidade de trabalho, sequência, amadurecimento. Alguns desses atletas vivenciaram situações na Taça Brasil Sub-20, onde perdemos duas semifinais na prorrogação e outras duas finais dessa competição. Isso também criou nos atletas condição de evoluir, de ter a percepção do que estávamos construindo, nos aproximando de um grande objetivo. Além disso, estávamos muito bem preparados.

Como remontar um time que perdeu nove jogadores para 2022?
A reposição não será apenas “caseira”, vamos buscar alguns jogadores de fora. Como em algum momento a gente já sabe que não vai conseguir manter um atleta, não se espera acontecer uma saída para começar a buscar a reposição. A gente já procura dentro do elenco algumas reposições. Depois, algumas peças pontuais nós buscamos fora.

Times de futsal do Minas Tênis Clube em 2021Equipes sub-17, sub-20 e adulta do Minas, campeão da Taça Brasil de Clubes em 2021

Quais sonhos você ainda tem dentro do futsal?
Tenho o sonho de ganhar uma Liga Nacional e, no futuro, trabalhar na comissão técnica da Seleção Brasileira. Mas meu desafio é o desafio diário, sou muito intenso, vivo demais o esporte, me jogo de corpo e alma nos projetos e nos clubes onde trabalho. Amo o que faço. Penso no meu dia a dia, na minha equipe, no clube que estou defendendo, porque é isso que vai me condicionar a novas portas se abrirem.

Nesses seis anos de Belo Horizonte, se adaptou à cidade? Do que mais gosta em BH?
No primeiro ano tivemos dificuldades pela distância. Minha família é do Rio Grande do Sul, e da minha esposa de Santa Catarina, e não conhecíamos muitas pessoas na cidade. Agora estamos muito adaptados. Minha filha faz parte da equipe de natação do Minas com oito anos, e minha esposa, que veio de uma cidade pequena, também está adaptada. Uma das coisas que mais gostamos (eu e família) em Belo Horizonte é o clima. É quente o ano inteiro. Não sou muito chegado ao frio. O clima aqui é muito bom, posso andar de bermuda por aí, e é muito mais agradável do que ficar cheio de casaco.

Futsal Minas Tênis Clube 2021Comissões técnicas do Minas, com Peri ao centro, posam com os troféus a Taça Brasil conquistados em 2021