A crise institucional vivida pelo Cruzeiro teve mais um capítulo policial na manhã desta terça-feira (17) com a Operação Voz das Arquibancadas, desencadeada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e as polícias Civil e Militar. Os alvos foram duas torcidas organizadas do clube, Máfia Azul e Pavilhão Independente.

Foram oito presos, de um total de 16 mandados de prisão, e 20 mandados de busca e apreensão, em cidades como Belo Horizonte, Contagem, Betim, Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana, e Barão de Cocais e João Monlevade, na Região Central.

Apesar de os confrontos entre integrantes da sua torcida não serem recentes, pois acontecem há mais de uma década, os episódios de 2019 têm, sim, ligação com a briga política vivida pelo Cruzeiro diante das graves acusações contra a atual diretoria do clube.

Toca II

E um marco nessa história é o dia 10 de setembro, quando Itair Machado ainda ocupava a vice-presidência de futebol do clube e abriu a Toca da Raposa II para quatro organizadas, entre elas a Pavilhão Independente, conversar com alguns jogadores, como Fábio, Rafael, Léo, Henrique e Dedé.

Do lado de fora ficaram algumas facções que foram barradas da reunião, em um dia em que estava marcado um protesto na Toca da Raposa II após a goleada de 4 a 1 para o Grêmio, no Independência, dois dias antes. Entre essas torcidas estava a Máfia Azul, que foi expulsa da porta do centro de treinamentos cruzeirense com tiros de bala de borracha e bombas de efeito moral lançados pela Polícia Militar, que fazia a segurança no local.

O primeiro jogo do Cruzeiro no Mineirão após esse episódio foi em 21 de setembro, contra o Flamengo, pela 20ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro, a primeira do returno. Nesta partida, começaram as brigas mais graves entre as duas torcidas tendo o Gigante da Pampulha como palco da batalha. Antes do confronto, no intervalo e na saída dos torcedores, vários confrontos foram registrados, o mais grave deles no portão de acesso ao setor amarelo, sendo que a Máfia Azul fica na parte superior, e a Pavilhão Independente na inferior.

O problema é que a separação era feita apenas por grades, que não são fixas, e que foram facilmente derrubadas pelos brigões. Neste dia, a Pavilhão estava “reforçada” por vários integrantes da Torcida Jovem do Flamengo, que é sua aliada e inimiga da Máfia Azul.

Cadeiras

Dois meses após o marco da confusão, em 10 de novembro, antes do clássico contra o Atlético, em que o Cruzeiro foi mandante, o confronto entre Máfia Azul e Pavilhão Independente aconteceu no Anel Rodoviário, com mais de 70 presos. Cinco tiveram de ser socorridos ao hospital.

Neste momento, a violência entre as duas organizadas já tinha saído de controle. E qualquer jogo do Cruzeiro como mandante passou a ser considerado de alto risco pelos órgãos de segurança.

Logo depois do clássico, um ingrediente às agressões entre os dois lados passou a ser o arremesso de cadeiras da Máfia Azul, no amarelo superior, contra o inferior, onde fica a Pavilhão Independente. Isso aconteceu de forma mais forte em 28 de novembro, na derrota de 1 a 0 para o CSA, que praticamente decretou o rebaixamento cruzeirense.

Neste dia, logo após Thiago Neves chutar para fora um pênalti, aos 22 minutos do segundo tempo, Pavilhão Independente e China Azul acenderam sinalizadores, que são proibidos em estádios brasileiros. Dois deles foram, inclusive, arremessados no gramado e o Cruzeiro será punido pelo STJD por isso.

A resposta da Máfia Azul foi arremessar o assento de cadeiras na parte inferior do setor amarelo, sendo que muita gente que não tem ligação com as duas torcidas (Pavilhão e China Azul) que eram alvo sendo atingida.

Por mais que aconteçam há mais de uma década, com alguns períodos de trégua, os confrontos de 2019 entre Máfia Azul e Pavilhão Independente estão diretamente ligados à crise institucional, política e financeira do Cruzeiro.

Prejuízos

Além do prejuízo deixado no Mineirão pelas torcidas - no jogo entre Cruzeiro e Palmeiras, a conta ficou em R$ 300 mil que o clube celeste terá de pagar - a briga entre as organizadas traz gastos públicos. De acordo com o comandante do Batalhão de Choque, tenente coronel Juliano Trant, desde setembro, a Polícia Militar teve de investir alto em efetivo e estratégias para garantir a segurança dos torcedores que não fazem parte das organizadas.

Segundo ele, desde setembro, a PM teve de se planejar para os jogos do Cruzeiro como se todos fossem clássicos contra o Atlético. Até mesmo em uma partida contra o Avaí, foi preciso fazer um trabalho de prevenção para evitar confrontos violentos entre os dois grupos rivais. 

* Com Cinthya Oliveira.