Campeão das cinco competições que disputou na temporada (Mundial, Sul-Americano, Copa Brasil, Supercopa Brasil, e Mineiro), Marcelo Mendez tentará repetir neste ano o feito alcançado em 2013, quando conquistou todos os seis troféus possíveis. Desde que assumiu o comando do Sada/Cruzeiro, em 2009, o técnico faturou 20 dos 26 títulos em jogo, chegando ao todo em 23 finais. Às vésperas de iniciar a disputa dos playoffs da Superliga Masculina de Vôlei, o treinador argentino conversou com exclusividade com o Hoje em Dia.

Novamente o Cruzeiro se classificou em primeiro lugar na Superliga e decidirá em casa. A que se deve esse sucesso?
É um trabalho sério e que fazemos em equipe. Os jogadores estão empenhados em dar o melhor, assim como a comissão técnica e diretoria do time. Isso é a recompensa que todos nós fazemos todos os dias, mesmo quando estamos longe dos jogos.

Dá pra perceber que você tem um carinho especial pelos jogadores. Isso ajuda na hora das partidas?
A relação que temos fora de quadra também é importante. Dessa forma, conhecemos os limites e como temos que nos tratar e nos respeitar. Sem isso, não teríamos a mesma relação que temos em quadra. Se eles não me respeitassem fora de quadra, dificilmente me respeitariam na hora dos jogos.

Quando está de folga, o que você gosta de fazer em Belo Horizonte?
Meu principal lazer é ficar com a minha família. Juntos, nós gostamos de passear e conhecer o interior do estado. Sempre que podemos, entramos no carro e saímos dirigindo para uma cidade diferente.

Você é um treinador que cobra muito dos jogadores. Alguma vez aconteceu de eles te cobrarem?
É algo normal de acontecer. Assim como eu cobro deles, eles também têm toda a liberdade de me cobrar. A mais recente que lembro foi agora, do meio para o final da temporada. Os jogadores falaram comigo que precisavam de um pouco mais de descanso. Conversamos com a comissão e, claro, cedemos algumas folgas a mais. Afinal, eles precisam estar 100% do início ao fim da temporada, e descanso também é treinamento, quando é para recuperar o físico e não “passar do ponto”.

Há seis anos, o Cruzeiro é o principal time do país. Mesmo assim, não é a base titular da seleção. Porque você acha que isso acontece?
Essa é uma pergunta que só o treinador da seleção pode responder. Cada treinador tem a sua forma de trabalhar e montar suas equipes de uma forma que lhe agrade. Isso também prova que ambos os trabalhos estão sendo bem feitos. Tanto o Cruzeiro quanto a Seleção Brasileira estão tendo bons resultados, por isso cada um faz as suas escolhas e joga como acha que é melhor.

Vários de seus jogadores deverão ir para a Olimpíada (William, Wallace, Éder e Isac). Caso Brasil e Argentina se cruzem, pra quem você torcerá?
Não teria problema em escolher um lado. Gosto de ver bons jogos de vôlei, e tenho certeza que seria ótimo assistir um clássico desse na Olimpíada. Eu torceria para os meus jogadores, para que eles tenham um desempenho excelente. Sempre torci pelo sucesso de todos os jogadores que eu treinei em suas seleções.

Como você vê a não convocação do Serginho?
O nosso Serginho é fantástico. Um líbero excepcional. Está certo que a seleção tem outro Serginho (o “Escadinha”), que também é excepcional. Por mais que já seja veterano, também é um líbero fantástico. Claro que o nosso Serginho merecia uma convocação, pelo menos para ser testado. Mas, como falei anteriormente, é uma escolha pessoal do técnico. Ele é quem avalia os jogadores que quer levar, e as características que lhe agradam.

Pela segunda vez, o Cruzeiro pode conquistar todos os títulos numa temporada. Qual o segredo?
Não tem segredo. São muitos bons jogadores, que desde suas chegadas ao time estão comprometidos com os nossos objetivos e projetos. Queremos ficar na história do vôlei brasileiro. Aliás, já estamos lá. E, mesmo assim, não nos conformamos com isso e queremos conquistar ainda mais.

O Cruzeiro já é a maior equipe da história do vôlei brasileiro. Como você vê esse status? Vocês conseguem ter noção da dimensão dos feitos que estão alcançando?
Acredito que essa ficha só vai cair com o passar dos anos. Enquanto ainda estamos envolvidos, construindo essa história, não veremos bem o tamanho de tudo que estamos realizando. Sabemos que é algo grandioso, mas ainda não terminamos o que começamos. Queremos continuar trabalhando até chegar ao nosso limite.

Existe limite para esse time? E para você, o que a palavra “invencível” significa?
Não tem ninguém invencível. Nenhuma pessoa e nenhum time. Todos têm seus pontos fracos, seus altos e baixos. São todos seres humanos, e é normal que um dia se perca. O que tentamos fazer é sempre que os momentos ruins sejam muito pequenos perto dos bons momentos. E, por isso, não sei o nosso limite.

Que seleções você considera como as principais favoritas para conquistar o ouro olímpico?
Acho que Itália, Estados Unidos e Brasil são os principais candidatos ao ouro olímpico. A Rússia também pode chegar lá, mas é preciso ver como será o comprometimento dos jogadores russos para eles chegarem ao nível desses três times.

O que ainda falta para a sua carreira como técnico de vôlei?
Não posso falar que me falta alguma coisa. Sou um técnico realizado. Com certeza ainda tenho minhas metas, como dirigir uma seleção por um bom tempo. Já dirigi a seleção espanhola, mas foi por pouquíssimo tempo (um ano). Mas não acho que me falta nada. Estou muito feliz trabalhando no Cruzeiro.

Conhecendo tão bem o vôlei brasileiro, qual seria o seu time titular atualmente se você dirigisse a seleção?
Não penso nisso. O Brasil tem muito jogador bom. Além disso, tem muitos jovens jogadores que precisam se desenvolver na seleção depois da Olimpíada também, que tem que começar a jogar com a camisa do Brasil.

Com a seleção cheia de jogadores acima dos 30 anos, quem você acha que são jogadores que estarão no ciclo para 2020?
Claro que há jogadores que serão a base dessa renovação. O Lucarelli é com certeza o principal nome dessa nova geração. Mas o Wallace também tem idade para chegar bem em Tóquio. Também tem os jogadores que estão despontando, como o nosso Rodriguinho, o Douglas (Sesi), Otávio (Taubaté) e o Flávio (Minas). Mas eles vão precisar ter muito tempo trabalhando lá, com tempo de quadra para chegar bem em 2020.

Dois Mundiais, Três Superligas, três Sul-americanos, duas Copa Brasil, uma Supercopa Brasil e sete Mineiros. Quando você olha pra todos esses títulos o que você pensa?
Penso no grupo, na comissão técnica e no trabalho que fizemos para conquistar tudo isso. O sacrifício, comprometimento e esforço que tivemos ao longo de cada temporada e, claro, nos prêmios que ganhamos. Fizemos e continuamos fazendo história, e esperamos continuar neste caminho nos próximos anos.

Nessa fase final da Superliga, quais os times você considera que podem atrapalhar seus planos de conquistar o título?
Acho que todos os times que chegaram aos playoffs podem surpreender. Eu respeito todos os times, até porque, a partir dessa fase, os favoritos, como nós, enfrentam times que não têm obrigação nenhuma de vencer. Então jogam soltos, arriscam muito, e isso pode complicar muito. Prova disso foram os confrontos que tivemos com o São Bernardo e o Volta Redonda, nos últimos anos, e quase fomos eliminados nas quartas de final. Nós temos o compromisso e obrigação de vencer, e isso é um peso a mais.

Dos oito times classificados para os playoffs, qual é o que tem um jogo que mais incomoda a forma do Cruzeiro de jogar?
Não sei se vamos cruzar com o Bento Vôlei, que tem uma forma de jogo que sempre incomoda a gente. O Sesi também é um time que sempre joga bem contra a gente.

Tem alguma meta que você ainda não tenha alcançado no Cruzeiro? E na carreira?
No Cruzeiro, já alcançamos todas as metas, inclusive conquistando duas vezes o Mundial, que era nosso principal objetivo. Quando assumi o Cruzeiro, em 2009, a única meta que tínhamos era chegar e nos manter no topo. Ainda hoje, trabalho para conseguir isso. Na carreira, ainda quero poder dirigir uma seleção em um Mundial e uma Olimpíada.