“Onde o rico cada vez fica mais rico, e o pobre cada vez fica mais pobre”. O trecho de uma das músicas que agitou o país no início dos anos 2000 ilustra bem a situação financeira dos clubes brasileiros a partir de 2016. Enquanto Corinthians e Flamengo receberão, cada um, R$ 170 milhões da cota de transmissão de TV, Atlético e Cruzeiro terão direito a um valor quase três vezes menor, mesma situação de Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo.

Inconformado com a discrepância, o presidente do Galo, Daniel Nepomuceno, diz que não há critério para a divisão e defende um modelo semelhante ao adotado na Inglaterra. “Estamos batendo na tecla de que o certo seria um terço da cota para o número de assinantes do pay-per-view, um terço dividido igualmente entre os clubes, e mais um terço por produtividade”, defende o dirigente.

Prevendo um processo de “espanholização” do Campeonato Brasileiro, o presidente atleticano teme que os dois clubes com as maiores cotas passem a dividir a hegemonia da Série A, assim como acontece com Barcelona e Real Madrid na Espanha. “A diferença do valor recebido por Atlético e Flamengo, em dez anos, será de R$ 1 bilhão”, alega o mandatário alvinegro.

VEJA AQUI A DISTRIBUIÇÃO DOS VALORES POR CLUBE NOS ÚLTIMOS TRÊS CONTRATOS

O abismo em relação aos demais clubes cresceu assustadoramente a partir de 2012. Até 2011, Atlético e Cruzeiro recebiam o equivalente a 64% do valor das cotas destinadas a Flamengo e Corinthians. Na próxima temporada, este percentual corresponderá a apenas 35%.

Para o superintendente de futebol do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, a situação é ainda mais preocupante do que a observada na Espanha. “Aqui é muito pior. É preciso contar o Estadual e o pay-per-view. Em São Paulo, eles vão ganhar R$ 20 milhões, e nós, R$ 5 milhões. A diferença dos paulistas e até dos cariocas em relação aos mineiros e gaúchos, por exemplo, é muito grande. Fiz uma conta outro dia, e a razão entre Figueirense e Corinthians é de 22 por 1. Na Espanha, a maior diferença é 8 por 1”, argumenta o dirigente.

O cruzeirense aponta ainda o Profut (Programa de Modernização da Gestão e Responsabilidade Fiscal do Futebol) como outro fator a ser considerado. “Agora, você só pode gastar 80% do orçamento. Vai ser difícil competir com clubes arrecadando o triplo, o quádruplo”.

Para o dirigente, a negociação deveria ser única, e não, individual, como ocorre hoje. “Os campeonatos que privilegiam a igualdade são melhores e, portanto, mais caros”, conclui.

Todos contra Flamengo e Corinthians, sugere especialista

Para o consultor de gestão e marketing esportivo Amir Somoggi, o abismo na divisão de cotas dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro é culpa dos próprios clubes.

Segundo o especialista, só há uma maneira de acabar com essa situação. “Enquanto não houver uma união de todos contra Flamengo e Corinthians, nada vai mudar. Os clubes assinam os contratos e, depois, não têm do que reclamar”, analisa o consultor.

Somoggi relembra que, recentemente, clubes do futebol espanhol e italiano conseguiram uma divisão melhor das cotas graças a uma união entre eles. “Atlético, Cruzeiro, Grêmio, Internacional e outros clubes de grande expressão do futebol brasileiro tinham que sentar para conversar e iniciar um movimento. Sozinhos, eles têm muito menos força e vão continuar recebendo menos”, completa o consultor.

Apostar em campanhas ousadas de marketing e na exploração maior da marca do clube seria uma boa alternativa para aumentar as receitas das equipes brasileiras que não contam com as polpudas verbas relativas aos direitos de transmissão recebidas por Corinthians e Flamengo.

Se por um lado Somoggi é totalmente contra esta divisão desigual, por outro, ele alega que é possível montar equipes competitivas mesmo com orçamentos mais limitados. “O Cruzeiro é um grande exemplo disso. Investiu em torno de R$ 150 milhões para montar um time em 2013 e foi bicampeão brasileiro, embora gastar milhões não seja certeza de título”.

Apesar da diferença de orçamentos, o especialista não acredita que os títulos do Brasileirão ficarão polarizados. “Os clubes podem conseguir montar equipes competitivas apostando em jogadores da base ou em início de carreira, por exemplo, que não são tão caros”, avalia o consultor.

Dura realidade para o América após o acesso

Se Galo e Raposa reclamam dos R$ 60 milhões que receberão no ano que vem, o América tem o triplo de motivos para se queixar.
Recém-credenciado a disputar a Primeira Divisão após terminar a Série B entre os quatro primeiros, o Coelho terá uma cota de R$ 20 milhões, ou cerca de nove vezes menos que Corinthians e Flamengo.

“A diferença dos valores é gritante. A nossa meta, por isso, será brigar com alguns clubes para permanecer na Série A”, reconhece um dos presidentes do Conselho Gestor do clube, Alencar da Silveira Jr.