Eleito em dezembro do ano passado ao cargo de presidente do Atlético, Daniel Nepomuceno acredita que o clube sairá da fila de 44 anos sem o título do Campeonato Brasileiro ainda nesta edição. Revoltado com a postura dos jogadores na derrota por 4 a 0 para o Santos, na última rodada, a qual classifica como apática, Nepomuceno promete um comportamento diferente do time no Horto, neste domingo, às 16h, contra o Flamengo, e também nas outras 11 que o alvinegro tem pela frente. Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o dirigente de 37 anos fala sobre a saúde financeira do clube, revela em que pé está o sonho da construção do estádio próprio, comenta sobre a arbitragem brasileira e tenta explicar à torcida o preço praticado pelo clube para os ingressos.


Há pouco mais de nove meses você era eleito presidente do Atlético. Como encontrou o clube financeiramente e qual é o panorama atual?
O Atlético tem uma estrutura diferenciada no contexto do futebol e, depois que você assume, vê que não é à toa que chegou nesta internacionalização dos últimos anos. A situação financeira do país é péssima. Entrei no meio de uma crise econômica e brigando pela questão tributária do clube. Agora, esta alta do dólar e do euro muda completamente as contas do futebol. Tivemos que nos adaptar bastante para poder equalizar os custos.
 
De acordo com os balanços dos clubes de 2014, o Atlético aparece como quarto mais endividado do Brasil, com R$487 milhões de pendências, atrás apenas de Botafogo, Flamengo e Vasco. Como vem administrando essa situação?
São R$ 280 milhões da dívida fiscal. Se você colocasse a dívida do ano 2000 no banco, a juros Selic, ela chegaria em 2015 a mais de 1 bilhão (de reais). Quem herdou esta dívida, como nós, tem que saber que a cada ano ela fica mais impagável. Por isso, homologamos um acordo com a Fazenda Nacional e, agora, com a adesão do Profut (refinanciamento da dívida fiscal dos clubes), teremos condições de pagá-la, em 180 meses.

Atrasos salariais já aconteceram este ano. Como é esse quadro no momento? Há risco de novos atrasos ou não?
Espero que não. Estamos dando conta de trabalhar isso. No futebol é diferente. Qualquer problema que você tenha, você precisa de um prazo maior de negociação, porque os valores são muito altos. Claro que em um mês ou outro você pode ter um problema, mas no balanço anual a gente fecha as contas.
 
Qual é o legado que sua gestão pretende deixar? Qual é o carro-chefe de seu planejamento estratégico?
O foco tem que ser nos títulos, uma boa equipe, e continuar na crescente que estamos.

Alguma novidade sobre o sonhado estádio próprio? Em que pé estão as tratativas? Houve avanço?
Enquanto não aparecerem os investidores e a receita estiver fechada, a gente não pode começar a brincar. Fizemos um projeto, está sendo aprovado, conseguimos a área, mas o mercado recolheu. Para avançar temos que trazer as pessoas certas, pois não podemos abrir mão da receita. O Atlético quer no mínimo 45 mil lugares de receita. Temos que aguardar o momento certo. O futebol surpreende. Às vezes, quando você não espera vem um investidor e um patrocínio, e quer investir. Se fosse há dois anos, a gente talvez teria o conforto de poder escolher. Hoje, não.
 
Um mandato será suficiente ou a reeleição faz parte desde já dos seus planos?
Não fala em eleição... Acabei de assumir e tenho muito tempo pela frente.
 

O senhor está licenciado temporariamente do mandato como vereador por BH. Como faz para conciliar a presidência do clube e a função pública? Uma atividade não compromete a outra?
 Pedi licenciamento por causa disso, para me dedicar ao Atlético. Não é fácil e estou aqui para trabalhar sério. É uma licença não remunerada e preciso me dedicar ao Atlético e depois à família.
 

Há quem diga que o senhor pode até abrir mão da vereança no ano que vem, na próxima eleição. Procede?
Outubro do ano que vem está muito longe. Estou dedicado ao Atlético agora e na hora certa eu vou me decidir.

Por que foi necessária a presença do Alexandre Kalil em uma visita que o senhor fez à CBF para protestar contra a arbitragem?
O Alexandre é uma pessoa que está sempre próxima, e já tinha ido à CBF junto comigo. Ele é sempre cobrado lá, pois é uma pessoa do meio.

O Kalil ainda tem voz ativa no Atlético?
Claro. É uma pessoa presente. A gente sempre conversa. Ele fez sua obrigação, mas continua essencial como conselheiro e como pessoa.

O assunto arbitragem é recorrente no Campeonato Brasileiro. Você acredita que há mesmo um esquema para beneficiar o Corinthians ou prejudicar o Atlético?
O futebol tem uma necessidade urgentíssima de modernização e de transparência. A maior revolta não é na hora imediata do erro, mas sim de você não ter uma proposta de mudança. Se eu acreditasse em algum esquema, não estaria aqui. É fato que alguns times são beneficiados por alguns critérios e um peso maior do que o outro. E, neste caso, são erros que também não consigo te dizer se são propositais ou não, mas que acontecem sempre com os clubes midiáticos.
 
Kalil puxou a orelha da torcida, via Twitter, reclamando do pequeno público contra o Avaí. Também pelas redes sociais, os atleticanos reclamaram do preço dos ingressos. Quem tem razão?
Saiu uma reportagem que mostra que o preço dos jogos do Atlético é o sétimo mais caro. Se eu colocar os preços dos times que estão disputando a ponta, temos o ingresso mais barato. Não é o ingresso que está caro desta vez, é que estamos sem dinheiro. Não é possível colocar o ingresso a R$ 20, por exemplo. Estamos totalmente dentro do mercado.

A taça do Brasileirão estará em Lourdes em novembro ou é um sonho distante?
Estamos na briga. A gente tem que ser o primeiro a cobrar dos jogadores e da comissão técnica, e brigar até o fim.

A Libertadores 2016 já faz parte das reuniões da diretoria?
Sou muito otimista. Penso em reforçar o time para ganhar tudo no ano que vem, sem deixar de lado o que está acontecendo agora. O planejamento já está sendo montado, aprendendo com os erros cometidos.
 
Levir Culpi já expôs o desejo de aposentar-se ao final da temporada. Tentará demovê-lo da ideia? Se não conseguir, Cuca seria o primeiro nome para substituí-lo?
Cuca é um grande treinador e provou ser uma pessoa de desafios, mas o Levir é o nosso treinador. Em 2014, ele renovou no último dia e isso é da personalidade dele. Não consigo pensar em mudanças com um quadro estável. Ele está feliz na cidade e tem que focar em ganhar o Brasileiro. Depois, a gente dá um jeito de amarrá-lo aqui. (risos)

O Atlético fará esforços para brigar judicialmente com o Osmanlispor, da Turquia, para não liberar o Patric?
O time turco não leva o Patric. É uma questão jurídica. Fizeram um aliciamento. Os clubes têm que respeitar uma linha ética e não usar a ingenuidade ou inexperiência do jogador para assinar um contrato horrível e da maneira que foi feita. Posso te afirmar que ele não vai pra lá.