Há pouco mais de 90 dias, Alexandre Gallo era demitido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), depois de 27 meses de trabalho como técnico das seleções sub-20 e sub-23 do Brasil. Após divergências com o coordenador Gilmar Rinaldi, ele deixou o cargo e muitas incertezas no ar. Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o treinador de 48 anos fala sobre a relação com Rinaldi e critica as diretrizes tomadas pela CBF para recuperar o prestígio do futebol brasileiro, apontando erros na formação de atletas. Observador técnico da Seleção nas Copas do Mundo e das Confederações, Gallo também responde sobre a relação com o técnico Luiz Felipe Scolari – que o acusa de ter vazado para a imprensa, após o 7 a 1, as recomendações táticas que fez e foram ignoradas pelo treinador para o confronto com a Alemanha. Desempregado desde a demissão, Gallo está perto de fechar com um clube europeu, provavelmente da Espanha.
 
Passados pouco mais de três meses de sua saída da Seleção, quais são seus planos profissionais?

Depois da saída, a minha ideia inicial era gastar todo esse bom relacionamento que fiz nesses dois anos e meio de trabalho e todo esse know-how que conquistei com as competições realizadas fora do Brasil, de tentar dar uma saída no Brasil.
 
Como tem aproveitado o seu tempo? Tem viajado, estudado? Algum plano de estágio com algum treinador na Europa, por exemplo?

Eu já fiz dois estágios na minha carreira. Uma vez fiquei quase 40 dias na Itália e 25 dias na Argentina. Na Itália, inclusive, foi quando saí do Atlético (em 2008). Nesses dois anos e meio de seleção, viajei demais e observei muito o futebol lá fora. Assisti jogos na Europa, vários jogos do Barcelona e do Manchester City. A CBF dá esta oportunidade de viajar e observar o futebol lá fora. Fui observador técnico da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. Talvez eu seja a pessoa com o melhor know-how em conhecimento de jogadores entre 17 e 23 anos. Fizemos um levantamento e este conhecimento é muito rico e dá possibilidade de você acompanhar muitos jogos, conversar com treinadores e presidentes de clubes. Sempre busquei entender o que estava acontecendo no trabalho de base e no sistema olímpico deles para aperfeiçoar o que a gente estava fazendo no Brasil.
 
Já recebeu muitas propostas desde a saída da seleção? Se sim, de quais clubes? Por que recusou?

Tive oportunidade de trabalhar no Japão e nos Emirados Árabes, e agora continuo tentando uma situação de saída. Tive um contato com o pessoal da China também, mas as coisas não encaminharam. No Brasil, a conversa que tive foi com o Santos. Me reuni com o presidente e o vice, mas estava quase certo com a China. Como o futebol é muito dinâmico, agradeci ao Santos, mas a coisa no Oriente não aconteceu.
 
Há a informação de que você teria sido sondado pelo Orlando City, dos Estados Unidos? É verdade?

Tenho um grande amigo que trabalha lá e meus filhos moram lá. Tive um contato com uma pessoa, mas era um trabalho específico para categorias de base. Minha ideia é continuar como treinador de equipes profissionais.
 
Qual é a sua opinião sobre o nível técnico deste Campeonato Brasileiro?

Eu não acho que é um período preocupante. Ainda formamos bons atletas. É o país com mais atletas na Champions League. O que acontece é que o Brasil não cria atletas para jogar dentro do país mais. Os trabalhos de base são feitos para revelar e subir ao profissional, fazer um ou dois jogos e sair. Enquanto isso, nossos adversários evoluem trabalhando para melhorar os atletas; a gente não quer enxergar isso. Em Portugal, o primeiro contrato com o clube formador é com 12 anos, aqui é com 14. Até os 12 anos eles trabalham os fundamentos dos atletas. Tem uma preparação melhor que a nossa. No Japão, todos os novos atletas são ambidestros, por exemplo. Aqui no Brasil, tudo isso passa batido. Isso desqualifica nossos atletas.
 
Até que ponto a campanha ruim no sul-americano, no Uruguai, foi determinante para a sua demissão pela CBF?

Perdemos seis jogadores importantes (Danilo, Biteco, Otávio, Mateus Muller, Caio Rangel e Carlos). Eles fizeram muita falta para o time. O Sul-Americano, eu já tinha falado na CBF, que seria a competição mais difícil para o Brasil. O objetivo era a classificação. Tínhamos condições de apresentar um futebol melhor, mas não fomos bem. Porém, em todas as outras competições que jogamos, ganhamos a maioria. Fui contratado para trabalhar a Seleção Olímpica. Foram 31 jogos, com 24 vitórias e 7 empates. Ganhamos Toulon duas vezes, que conta com as melhores seleções do mundo. Por isso acho que não foi determinante. Estive em 74 jogos e perdemos apenas 5.
 
Era nítida a tensão no relacionamento entre você e Gilmar Rinaldi. Por que havia essa rusga?

Na verdade não houve rusga. Acho que eles entenderam na Copa América a dificuldade que tivemos no Sul-Americano que joguei. Mas não poderia ser levado em consideração eu estar na sub-20 e ter sido contratado para a Olímpica. Nosso time olímpico com certeza é a melhor geração do Brasil. O que acho que aconteceu foi a mudança de entendimento do que é a categoria de base, de dar um senso profissionais a ela, por entender que os jogadores já são todos profissionais. Fizemos 38 jogos em um ano com alguns atletas para que ganhassem experiência em jogos internacionais. Outro grande problema foi também a vontade de disputar a Olimpíada por eles.
 
Pessoas próximas a você dizem que ele arquitetou a sua demissão. O que diz sobre isso?

Não é que tenha sido arquitetada. É complicado quando a pessoa entra para ser o comandante e não tem a mesma cabeça que a sua. Na cabeça dele, não tínhamos o mesmo pensamento do que era uma sequência de trabalho de base, que no meu entender estava sendo bem feito por nós e, prova disso, é que recebemos vários elogios de pessoas de fora do Brasil. Várias coisas foram feitas, mas no mundo do futebol é assim.
 
Corre a informação de que Felipão, magoado com você pelo episódio da Copa 2014, advertiu Rinaldi e Dunga a seu respeito, desabonando a sua conduta. Sabia disso?

Nunca vazei nenhum relatório da Copa. Após o jogo da Alemanha, saiu uma edição no Jornal Nacional de que eu e o Roque Jr. teríamos falado de uma mudança de sistema, e a gente sempre conversava com ele e respeitava muito as decisões dele. Fiz todo o acompanhamento da Alemanha e passei tudo para ele. Tenho uma gratidão muito grande por ele. Não sei se ele falou isso para o Dunga ou para o Gilmar. Sobre esta edição da Globo, conversei com ele, olhando nos olhos dele, e hoje coloco a cabeça tranquilamente no travesseiro antes de dormir.
 
Independentemente dessas questões de bastidores, havia, principalmente na imprensa, quem criticasse o seu nome para o posto que ocupava. Como argumento, currículo e experiência insuficientes para a função. Como recebia isso?  

Me preparei muito e estudei muito para isso. Temos que aceitar as críticas, pois nunca vamos ser unanimidade. Para mim, o ciclo olímpico estava sendo feito de uma maneira brilhante e foi uma grande frustração não poder disputar a Olimpíada. O imediatismo e a vontade ganhar a medalha acabam sendo maiores do que colocar um planejamento.
 
Considera que deixou algum legado na base da seleção com o seu trabalho?  

Eu acho que quando existe uma mudança assim, muda-se praticamente tudo. Organizamos todas as categorias e tentamos nos aproximar dos clubes como nunca antes foi feito. Tenho certeza de que fiz um grande trabalho lá e mudamos muita coisa lá dentro. No Brasil, a pirâmide está invertida. O investimento maior tem que ser no sub-15. Na sub-20 já é o produto final. A base trabalhada no país é muito em cima de rendimento final e não é qualitativo. A qualificação é para a venda. Penso um pouco diferente do que o novo coordenador de seleções pensa.
 
Você pensa em retornar à Seleção um dia, mas como treinador da equipe principal? É um projeto que te move?

Isso é uma meta de todo treinador. É uma coisa que tem que ser natural. Tem que pensar no dia a dia e deixar que o homem lá em cima resolva. Tem que trabalhar com muita seriedade e honestidade. Quem sabe, um dia.
 
Mais de 13 meses depois do 7 a 1, a sensação é de que seguimos perdidos, andando em círculos. Concorda?  

Tem muita coisa errada no futebol brasileiro. A gente houve questionamentos sobre os treinadores. Acho o que o treinador é um mágico e não um profissional do futebol. A média do trabalho na Europa é de 18 meses, e, no Brasil, de dois meses e 20 dias. Gostaria de saber quem é o profissional que consegue impor seu trabalho neste tempo. Não existe. Uma das coisas absurdas é o topo da pirâmide. Não pode um presidente trabalhar dois anos num clube. É covarde também com a direção. No Brasil, se você entrar e não ganhar, você sai. Os treinadores viram uma muleta e um ponto de vazão e de responsabilidades. Por isso também eu penso em sair do país.
 
Como você viu a prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marín, e a onda de escândalos envolvendo a nossa e outras confederações?

É uma questão política que não me envolvo. A minha posição é técnica. Sempre que houve necessidade de apoio para a gente, sempre aconteceu por parte do Marin e do Del Nero. A gente só pode dar um parecer depois que os fatos forem concluídos, porque fica muito subjetivo de se falar.