Investigado pela força-tarefa da “Lava Jato” por manter contas milionárias na Suíça, supostamente fruto de corrupção na Petrobras, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), continua dando as cartas. Atualmente, o peemedebista teria 120 deputados fiéis. Oito deles no Conselho de Ética.

Ao contrário do ex-deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que há dez anos renunciava ao cargo de presidente da Câmara, menos de um mês depois da denúncia de que havia recebido um “mensalinho” para prorrogar a concessão de um restaurante da Casa, a crise envolvendo Cunha vai completar três meses.

Pela oitava vez, o Conselho de Ética se reúne, hoje, para votar se abre ou não processo contra o peemedebista. Ele é acusado de quebra de decorro parlamentar por ter mentido na CPI da Petrobras ao dizer que não tinha conta no exterior.

Poder do cargo

Um dos opositores do peemedebista com lugar no Conselho de Ética da Câmara, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) credita a influência de Cunha ao poder do cargo de presidente da Câmara.

Segundo Delgado, ele arregimentou uma tropa de choque distribuindo cargos comissionados, emplacando aliados em comissões especiais, pautando projetos de interesse de setores e manobrando com o regimento da Casa.

“O Eduardo tem uma estrutura política própria. O Severino não tinha um batalhão para lhe defender. Ele (Severino) não atraía aliados com cargos e indicações”, diz.

Na avaliação de Delgado, todas as artimanhas já foram usadas para adiar a votação do Conselho de Ética. Apesar disso, aliados dele ainda podem alegar que o processo deve voltar à estaca zero, tendo em vista que um novo relator foi designado.

“Até a oposição já entendeu que o Eduardo prejudica o Legislativo”, afirma. Caso a admissibilidade seja votada nesta terça (15), o processo deve ser instaurado com 12 votos a favor e oito contra a abertura, projeta o deputado.

Opinião pública

Para Delgado, a menor adesão de manifestantes nas ruas, no último domingo, demonstra a insatisfação da opinião pública contra o condutor do processo de impeachment.

“Um processo de impeachment com base na vingança e no revanchismo não vai prosperar. A população esclarecida que participa dos protestos está desconfiada. Não dá para entrar numa aventura de tirar a presidente da República e colocar o Michel Temer no poder”, avalia Delgado.

Outro fator importante que pode explicar a força de Cunha é a articulação dele com as bancadas identificadas com temas conservadores, entre eles a revisão do Estatuto do Desarmamento (para facilitar a compra e venda de armas) e a criação do Estatuto da Família (para proibir a adoção de crianças por casais gays).

Com amplo apoio da maioria dos deputados, Cunha chegou à presidência ainda no primeiro turno. A bandeira dele era dar maior autonomia ao Legislativo.